Como escrever

Meg Rosoff

Traduzido por Israel Vilas Bõas.

Revisado por Mateus Lacerda Sá Teles.

Trabalhei 15 infelizes anos com publicidade e, quando finalmente saí, não tinha nenhum resultado para mostrar, exceto alguns anúncios dos quais ninguém lembrava mais — e um flat, comprado em 1991 com meu salário magro. Fui demitida muitas vezes, por insubordinação e desgosto geral pelas pessoas e pelo processo, mas sobretudo por mim mesma, por não ter tido a coragem de me demitir e fazer algo que valesse a pena.

Assim que comecei a escrever romances, no entanto, descobri que aqueles 15 anos não haviam sido completamente desperdiçados. O que foi um alívio. Agora, penso neles como um tipo de aprendizado medieval, no qual acorrentam você a uma bancada e o obrigam a fazer coisas inferiores até que você seja competente o suficiente para produzir um sapato.

shoemaker7

Então, eis algumas coisas que aprendi nesse período.

  1. LEIA. Best-sellers e autores obscuros recentes, bem como autores dos séculos XVIII, XIX e XX. Shakespeare. História e ficção, memórias e livros ilustrados, tudo que é excelente e, ocasionalmente, alguma coisa que for muito ruim também. Ideias vêm de todo lugar e, além disso, se você não se interessa por livros, não deveria estar escrevendo-os.
  2. O mercado é importante. Se não há mercado, não há dinheiro (e escrever é, no final, um trabalho — um trabalho melhor que a média, mas um trabalho.)
  3. Mas… ignore o mercado enquanto você trabalha. Pessoas escrevendo apenas por dinheiro podem sempre ser apontadas numa fila de suspeitos. Elas parecem rústicas, suadas e desesperadas. O resto de nós parece apenas desesperado.
  4. Saiba escrever. Sério, ajuda.
  5. Gaste tempo pensando. Escrever só é aproximadamente 20% do trabalho. Às vezes, menos.
  6. Não há regras. Seu trabalho é quebrar as regras.
  7. Seja sábio. Saiba mais que sua audiência sobre alguma coisa – qualquer coisa.
  8. Vá direto ao ponto. A capacidade média de atenção de uma pessoa moderna é aproximadamente a metade do tamanho do que quer que se esteja interessado em contar a ela.
  9. Viva. Amplitude de conhecimento é bom, profundidade emocional é ainda melhor.
  10. Minta sobre tudo, menos paixão. Cadeiras podem falar. Porcos, voar. Mas, se você não se importar com o que está dizendo, ninguém se importará também.
  11. Ouça o que outras pessoas têm a dizer: Se quinze pessoas diferentes dizem que seu sapato é maçante, pesado e grosseiro, ele provavelmente é.
  12. Mas… quando uma editora disser “esse tipo de livro não vende,” não o jogue fora. Ninguém sabe o que vende, até que venda.
  13. Não se preocupe com suas conexões (ou falta delas). Qualquer um que seja bom de verdade chegará lá. Persistência cega e obstinada leva a melhor de vez em quando.
  14. Edite impiedosamente. Não se apaixone pela sua prosa. Deus inventou o botão delete para ajudar você.
  15. Persista. É um jogo longo (pergunte à Mary Berry sobre seus 30 anos na selva). Ninguém tem um caminho desimpedido do início ao fim. Isso vale para a vida e para a escrita.
Anúncios

Memorial de leitura de Israel

O objetivo deste texto é mostrar de que maneira a leitura se tornou parte essencial de minha vida. Começo com uma citação de Descartes, na qual consta: “a leitura de todos os bons livros é qual uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversação premeditada, na qual eles nos revelam tão somente os melhores de seus pensamentos[1]”. Esse excerto é representação adequada da importância da leitura para mim, pois, como ler é um processo de decodificação, compreensão e assimilação mental de uma mensagem, devido à minha tentativa de escolher, à moda de Descartes, precisamente os livros que se destacaram em cada século, a leitura se torna a absorção de movimentos de pensamento de alta qualidade. Assim, em tese, eu posso viver uma vida menos dura.

A forma como esse processo é realizado foi mudando com o tempo, dependendo da fase da formação escolar em que eu me encontrava. Durante a educação básica, não havia tanta escolha de minha parte. Para atingir a habilidade necessária para encarar textos mais complexos, era preciso passar por alfabetização e, depois, por um refinamento desse saber recém-adquirido. O processo se dava de forma artesanal e repetitiva, consistindo predominantemente de três práticas. Uma delas era responder a questões, procurando em textos, figuras, símbolos e qualquer outro meio de passar a mensagem, escolhido pelos educadores,  a parte da mensagem que serviria como resolução da pergunta realizada. Outra era responder a perguntas cujas respostas pressupunham o uso, não de um texto específico, mas de todo o conhecimento adquirido até ali. Por último, tendo os meus professores, em geral, a ideia de que ler e escrever são dois lados de uma mesma moeda, havia a prática ocasional da escrita, em avaliações de redação nas quais se deveria usar todo o conhecimento de mundo que se tinha. Fora da escola, eu lia aquilo que os meus critérios incipientes de jovem leitor apontavam como de boa qualidade e que estavam disponíveis por um bom preço.

No ensino superior, ocorreu um intenso refinamento generalizado. Fui exposto a uma série de métodos de leitura, que me mostraram que é possível realizar de várias maneiras as etapas do processo de ler. O método específico do curso de Filosofia, o estruturalista, foi o que mais me chamou a atenção. Havia nele especificidade e uma intensa apologia ao rigor e à precisão que não vi nos outros. Ele também apresenta a pretensão de suprimir a influência da ideologia do leitor, de maneira que este recebesse as ideologias do texto sem julgá-las positiva ou negativamente no momento do recebimento. Isso se dá de duas formas. Primeiro, incentiva-se o leitor a adotar uma postura neutra diante do texto. Eis o que afirmam Folscheid e Wunenburger:

Para ler realmente um texto, devemos nos colocar ingenuamente diante dele, sem preconceitos de nenhuma espécie, sem expectativas, sem saberes prévios – ou lembranças de saber.

Disso resulta que é necessário afastar o que se sabe para se contentar com o que se lê. Caso contrário, você não enxerga. Sobretudo, não enxerga aquelas evidências maciças que, como bem diz a expressão consagrada, “saltam aos olhos”[2].

Depois, entra em ação o método estruturalista propriamente dito, desenvolvido na França do século XX por Victor Goldschmidt e Martial Guérrout, e que me foi apresentado como aquele que permite uma real objetividade na leitura dos sistemas filosóficos, a salvo das distorções que frequentemente vêm com a interpretação pura e simples. Sobre isso, diz Porchat:

Objetividade que consiste na reconstituição explícita do movimento de pensamento do autor, refazendo seus mesmos caminhos de argumentação e descoberta, segundo seus diversos níveis, respeitando todas as suas articulações estruturais, reescrevendo, por assim dizer, segundo a ordem das razões, a sua obra, sem nada ajuntar, entretanto, que o filósofo não pudesse e devesse assumir explicitamente como seu. E sem esquecer um só instante que “as asserções de um sistema não podem ter causas, ao mesmo tempo próximas e adequadas, senão razões. E razões conhecidas do filósofo e alegadas por ele”[3].

O estruturalismo filosófico também exige que se façam protocolos de leitura, que consistem em anotar, sobre cada parágrafo lido, qual o seu tema, a tese, e os passos argumentativos usados para justificá-la. Isso evita anacronismos e outras distorções. Depois, faz-se um esquema sobre o todo do texto.

De um lado, pôr em prática todas essas exigências é minha principal dificuldade no ensino superior. Muitas vezes, nenhum conceito prende imediatamente o olhar; nenhuma tese parece se destacar. É difícil pôr o dedo na tese e separá-la dos movimentos argumentativos que lhe dão sentido, o que faz a produção e organização de artigos sobre os autores lidos uma tarefa árdua. Conforme os semestres passam, ler se torna uma tarefa cada vez mais vagarosa.

Também é difícil concretizar o outro lado da moeda, a escrita. Há sempre grande medo em deixar um dos passos argumentativos dos autores de fora, sob pena de a ideia exposta não ficar clara e do texto final parecer uma colcha de retalhos. No entanto, um cuidado excessivo com a exposição do autor pode tornar o texto prolixo e carente de objetividade.

De outro lado, as especificidades da leitura filosófica muitas vezes me dão facilidade em identificar conceitos nos discursos alheios, nos diálogos de pessoas e personagens, nos textos e mesmo em pesquisas científicas, me permitindo absorvê-las em minha vida ou rejeitá-las. Isso porque as mensagens presentes nos textos filosóficos são totalmente redutíveis a um pensamento racionalmente conduzido, que se move apenas no domínio conceitual. Assim, nas pesquisas científicas, um dos conhecimentos mais valorizados hoje, é possível separar o que são fatos das interpretações sobre eles.

Por lidar com obras de todos os séculos, tenho de encarar estilos de escrita muito diferentes do exigido hoje. Isso causa um grande estranhamento. Há textos extremamente herméticos, como a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, que mesmo estando em português, exigem quase o mesmo trabalho que ler um texto em outra língua. Os livros e artigos sobre fenomenologia são os que mais me causam deslumbramento e dificuldade.

As leituras com que mais me identifiquei foram os textos nos quais permeava um tom analítico, em especial os de ceticismo ou aqueles com um quê cético, como O discurso do método de Descartes. Eles propõem a análise e remoção da maior parte das crenças de um indivíduo, o que é ótimo para limpar muitos preconceitos, crenças absorvidas sem pensar, injunções, amores a ideias por mera tradição e a manutenção apenas de poucas ideias necessárias à vida, e mesmo estas não sendo fixas e podendo sempre mudar. A postura investigativa do ceticismo também previne à adesão a ideias que pareçam mais convincentes de início, fazendo com que o aprendiz de cético deixe seu juízo suspenso por quanto tempo for necessário até que decida se aquela noção vale alguma coisa ou não.

Outro exemplo é Problemas de Gênero, de Judith Butler, que me mostrou que os papéis supostamente fixos de homem e mulher são, na verdade, construídos culturalmente, e que a dose de escolha do indivíduo sobre até que ponto segui-los é muito maior do que o que se supõe. Mais um estudo que fez bastante diferença na minha formação foi o estudo de filosofia da linguagem, que mostrou a dose de preconceitos e ideias que entram no indivíduo simplesmente por aprender linguagem, e como a língua é racista, machista, homofóbica e tem intrínsecas várias outras ideias de má qualidade. A descoberta desses estudos melhora minha relação com as pessoas.

Com efeito, é pelos motivos citados anteriormente, a saber, o contato com os melhores pensamentos das pessoas mais qualificadas da história, a alta absorção conceitual que o método estruturalista proporciona, e o teor analítico sobre o mundo, as sociedades e os indivíduos em geral, é que considero a leitura importante no meu ensino superior, porque quem sai de um curso de humanas tem grandes chances de ser um formador de opinião e é preciso entender muito bem como elas funcionam para não ajudar a formar opiniões dogmáticas, mal pensadas, preconceituosas.

Minhas leituras habituais são os livros da faculdade, livros de literatura e colunas de jornal que considero interessantes, como a de Eliane Brum. Além de alguns blogues de pessoas cujas ideias aprecio. Já a minha família lê pouco ou nada. Meu pai não lê; minha mãe e irmãos leram na escola e o livro de bobagens Ágape, do Padre Marcelo Rossi, lançado em 2010.

BIBLIOGRAFIA

DESCARTES, René, Discurso do método,  tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Jr, in  Descartes I, São Paulo, Nova Cultural, coleção Os Pensadores, 4ª edição, 1987.

FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica, tradução de Paulo Neves, São Paulo, Martins Fontes, 3.ª Edição, 2006.

GOLDSCHMIDT, Victor. A religião de Platão, prefácio introdutório de O. Porchat, tradução de IEDA e O. Porchat, São Paulo, Divisão Europeia do Livro, 2.ª Edição, 1970.


[1] DESCARTES, René, Discurso do método,  tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Jr, in  Descartes I, São Paulo,

Nova Cultural, coleção Os Pensadores, 4ª edição, 1987.

[2] FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica, tradução de Paulo Neves, São Paulo, Martins Fontes, 3.ª Edição, 2006.

[3] GOLDSCHMIDT, Victor. A religião de Platão, prefácio introdutório de O. Porchat, tradução de IEDA e O. Porchat, São Paulo, Divisão Europeia do Livro, 2.ª Edição, 1970.

Memorial de Anderson

Anderson Luis de Souza Silva

Meu objeto é mostrar, neste memorial, o quanto a leitura foi, é e será, até o fim de meus dias, parte fundamental de minha vida. Poeticamente falando, a leitura, para mim, é libertação, ou melhor, é libertar-se da vida, que é uma prisão da qual só quem lê consegue fugir. Fugir não: sair honestamente, cabeça erguida, pela porta da frente, sem dever nada a ninguém. Em um sentido objetivo, a leitura, creio, é a capacidade que o ser humano tem de decodificar o mundo. Aqui não se trata, é claro, apenas de decodificar um amontoado de palavras postas em um pedaço de papel, mas sim de decodificar tudo que está a nosso redor, tudo o que vemos e o que não vemos. A leitura é interior e exterior: lemos tudo que nos cerca e tudo que se passa dentro de nós.

 
Em minha família nunca houve, infelizmente, o hábito da leitura. Cresci em uma casa onde pouco ou quase nada se lia. Era, em meu lar, a televisão a grande “estrela”. Todas as noites reuniam-se os meus a fim de assistir a ela. E os livros, esses serviriam apenas de enfeite à estante, se não fosse o fato de eu cuidar deles, desde minha infância até hoje. Tento, de alguma forma, incutir em meus familiares o amor da leitura. No entanto, forçoso é confessar ser isso um trabalho cujo resultado é de todo nulo.

 
Agora, infelizmente ou felizmente, não posso medir qual foi a importância da leitura em minha vida escolar porque, devido a vários problemas de saúde, não tive vida escolar. Frequentei o ensino fundamental por cerca de cinco anos, dos quais não me lembro de quase nada. Minto! Não me lembro de nada. Assim sendo, pulando “amarelinha”, pulemos essa triste parte de minha infância… Ensino médio não frequentei. (Valha-me Deus! Este memorial já começa a ganhar feição de tragédia! Todavia, não deixes de lê-lo, por favor; enxuga as lágrimas, pessoa comovida: neste texto, ainda lerás histórias felizes, prometo-te.) Isso, o fato de eu não ter frequentado ensino médio, implica dizer que, antes de chegar à universidade, eu nunca havia tido uma única aula de Literatura e que toda a minha formação como leitor foi feita por mim mesmo. Mas não sejas leviano, frascário: não vás deduzir daí que não estudei. Muito pelo contrário, li boa parte dos clássicos da língua portuguesa, sobretudo os livros de Machado de Assis. Este escritor, aliás, foi o melhor professor de Literatura e de Língua Portuguesa que tive. Todavia, não foi Machado quem me transmitiu o amor da leitura: foi a Moça do Recife, Clarice Lispector. Tudo começou quando, por conta própria, uma vez que já disse não haver tido vida escolar, eu estudava um livro de gramática e, nele, deparou-se-me um conto de Clarice intitulado Felicidade Clandestina: foi amor à primeira vista. Desde esse dia, passei a amar as literaturas brasileira e portuguesa, mesmo sem nunca haver tido uma única aula de Literatura, donde concluo (e aqui peço perdão aos professores) que a melhor forma de se apaixonar pela leitura é não tendo aula de Literatura.

 
Sem dúvida, foi com a leitura das obras de Machado de Assis que mais me identifiquei. Se Clarice Lispector foi minha “Marcela”, o primeiro amor de Brás Cubas, os livros do Bruxo do Cosme Velho foram minha “Virgília”, o amor de Brás Cubas em sua maturidade. E por que me identifiquei tanto com Machado de Assis? Decerto, algumas das razões principais foram: o fato de, qual ele, eu ter estudado por conta própria; qual ele, nunca eu ter permitido que, apesar dos golpes da Fortuna, me tratassem por coitadinho; qual ele, eu ter invertido situações que me eram completamente desfavoráveis.

 
Quando comecei a me tornar um machadiano compulsivo (esta é a melhor definição) tive dificuldades em assimilar a ironia contida nos textos de Machado de Assis. Sim, porque sua ironia é, as mais das vezes, sutil, de modo que exige do leitor um alto grau de sensibilidade para percebê-la. Também a linguagem utilizada por ele era-me, a princípio, sobremodo difícil de assimilar. Eu dizia: “Meu Deus, o que este homem está dizendo?” Mas, após muita insistência, percebi que aquela linguagem não era tão complicada: era, na verdade, simples para quem conhece as estruturas de nosso idioma. E, para dizer tudo, era a língua literária brasileira atingindo seu ápice na pena de um rapaz que se fez por si, que entrou onde não queriam que ele entrasse: na história deste país.

 
Do modo que este texto se vai apresentando, provavelmente suporá o leitor que minhas leituras se resumem aos livros de Machado de Assis. E suporá mal, pois minhas leituras começam nas cantigas trovadorescas, sobretudo as de Dom Dinis, e terminam nos autores contemporâneos, entre os quais destaco José Saramago, cujos livros (principalmente o Ensaio Sobre a Cegueira) contribuíram sobremodo para minha formação como leitor. A propósito, foram as obras de Saramago que me causaram os maiores estranhamentos, pois, ao começar a lê-las, deparou-se-me um estilo de escrita com o qual não estava acostumado. Vi que o escritor português quase nunca empregava o ponto, os dois-pontos, o ponto e vírgula, o travessão para indicar o diálogo entre as personagens, enfim, vi que ele adotava uma forma de escrever que fugia completamente ao convencional. Foi-me, por isso, num primeiro momento, sofrível ler, por exemplo, o Ensaio Sobre a Cegueira; neste livro, quase Saramago me tira todo o fôlego com seus períodos intermináveis. A princípio, não entendia qual era a intenção do autor. Mas depois percebi (e isto levou-me a ter uma das mais gloriosas experiências que já tive numa leitura) que José Saramago queria que o leitor não lesse o livro, mas sofresse o livro. E a forma que ele encontrou para fazer isto foi adotar uma maneira de escrever que obrigasse o leitor a ficar com o rosto colado no livro, prestando o máximo de atenção àquilo que lia, sob pena de não conseguir entender nada.

 
Também me dediquei a ler Camões. Sou apaixonado pel’Os Lusíadas. Li este livro como uma criança em uma loja de doces ou de brinquedos. Pessoa, cujos poemas jamais me saem da cabeça, foi meu companheiro durante uma das piores fases de minha vida. Quando eu me perguntava se valia a pena insistir, se valia a pena lutar, logo me vinham à mente as palavras do poeta: “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”. Isso também me diz Pessoa sempre que penso em desistir das Letras. O curioso é que o próprio Fernando Pessoa abandonou o curso de Letras, mas é porque ele deve ter meditado que valia pela abandoná-lo. Mário de Sá-Carneiro, que deu “azar” de ter sido contemporâneo de Pessoa, é outro poeta português que me encanta. Seu poema Quase parece um relato de minha vida, pois sempre me parece falar um golpe de asa para terminar o que comecei.

 
Agora, saiamos de Portugal, leitor; entremos numa caravela e vamos para o Brasil, para que eu te conte, neste memorial, quem, além dos escritores brasileiros já citados, são meus amigos… Ei-los: a Sr.ª Cecília Meireles, que me ensinou que, neste mundo, não é preciso ser feliz nem triste: basta ser poeta; o Sr. Mário Quintana com sua poesia doce; o Sr. Carlos Drummond, cuja pedra ainda está no meio de meu caminho, o Sr. Manuel Bandeira, com quem viajei para Paságarda; o Sr. Castro Alves, que me fez chorar dentro do navio negreiro; o Sr. Aluísio Azevedo, cujos livros atirei à parede, de raiva por causa da hipocrisia dos seres humanos; o Sr. Olavo Bilac: quando tempestades destruíram meus campos, só me restou a última flor do Lácio; o Sr. José Lins do Rego, cujo fogo morto acendeu ainda mais meu amor da leitura; o Sr. João Cabral de Melo Neto, que me alcunhou Severino; o Sr. Érico Veríssimo, que me ensinou a olhar os lírios do campo; o Sr. Graciliano Ramos, que tentou tornar a minha vida ainda mais seca. Enfim, são tantos amigos… Muitos outros há, mas, se for citá-los todos aqui, dar-lhe-ei um livro.

 
“É preciso ler tudo tudo, absolutamente tudo!”, bradava, na década de 1920, em tom de desespero, o poeta Carlos Drummond de Andrade. O poeta sabia a importância de leitura na formação de sociedade brasileira. Sabia que a falta dela causaria um desastre ao país. O poeta talvez não fosse profeta, mas antevia o futuro do Brasil sem leitura. “É preciso ler tudo, absolutamente tudo!”, essas palavras jamais me saem da cabeça. Por isso, não obstante eu sempre ter preferido a literatura lusófona, procuro ler tudo que me chega às mãos: desde livros de autoajuda até literatura estrangeira. Não que eu goste de qualquer gênero de texto, mas a necessidade e as palavras do poeta me obrigam a ler tudo. Todavia, é-me forçoso confessar (e, no parágrafo acima, isso ficou bem claro) que o gênero literário de que mais gosto é o romance, seguido de perto pela poesia. Metade de mim é prosa, metade é verso. E, para ser mais preciso, minha paixão são os romances realistas de Machado de Assis, sem me esquecer de citar os de outro grande escritor realista, Aluísio Azevedo, cujos livros também me encantam.

 
Leio muito gramáticas normativas. Não digo que elas me ensinaram a escrever; digo apenas que me ensinaram a identificar e classificar as partes de um texto, de modo que eu soubesse pontuar corretamente meus escritos; ensinaram-me também a ortografia. Não há porque eu negar que sou apaixonado pela gramática normativa. Tenho várias e as estudo diariamente. Confesso que, antes de chegar ao curso de Letras –– aliás, antes de ter contato com linguistas como Mario Perini, Ataliba de Castilho, o que fiz bem antes de entrar na universidade ––, eu tinha uma visão bem restrita da língua portuguesa: achava que a língua se resumia àquilo que prescrevem as gramáticas normativas. Os linguistas a que me referi, porém, ampliaram-me os horizontes no tocante à nossa língua, razão por que os incluo neste memorial entre as leituras que marcaram minha vida. Eles preparam o caminho para eu chegar às Letras. Aí, apesar de até o momento só haver tido um semestre de aulas, pude ampliar sobremodo meu leque de leitura, ter contato com textos cujos gêneros são totalmente diferentes daqueles como os quais me acostumara. E, a princípio, isso me foi difícil de assimilar: não é nada fácil para quem só tivera contato com textos literários de repente se ver diante de textos acadêmicos, cheios de regras, cheios de normas, cheios de “não me toques”. E por que hei de negar que ainda não consigo digerir tais tipos de texto? Sim, para mim ainda são difíceis de ler e, obviamente, de entender.

 
Não posso terminar este memorial sem citar um livro que me acompanha desde quando eu era um menino: a Bíblia. Como fui criado em uma família cristã protestante, sempre esse livro esteve presente em minha vida. Comecei a lê-lo ainda criança, nas escolas dominicais de eu participava na Igreja Metodista. Foi aí que me transmitiram o amor pela Escritura. Amor que tenho até hoje: leio a Bíblia todos os dias, não obstante já tê-la lido, capa a capa, três vezes. É um livro que, definitivamente, é parte de mim. Por isso, faço questão de mencioná-lo aqui não como uma leitura que marcou a minha vida, mas sim como a leitura que marcou minha vida.

 
Por fim, ressalto que foi importante, para mim, escrever este memorial, pois pude trazer à memória parte de minha vida de leitor, E, com essa retomada, poderei organizar melhor minha vida acadêmica, poderei analisar os erros e acertos que cometi em minhas leituras, de modo que eu possa fazer uma reflexão mais acurada sempre que tiver de ler um texto acadêmico ou de qualquer outro gênero.

Contrastes

Lucinha estava na poltrona do cinema, esperando o filme começar, quando, de repente, no assento ao lado, uma idosa desmaiou. Na verdade, a senhora havia morrido, como Lúcia saberia alguns minutos mais tarde, depois que o socorrista terminasse o exame.  Havia sofrido um enfarto fulminante e morrido assim, rapidamente, como quem desmaiasse.

A idosa foi levada dali para o IML e a sessão foi retomada. Quando o filme começou, a jovem refletia sobre a ironia da situação. Estava ali para ver uma história sobre a adoção de duas crianças por um casal de lésbicas, sobre o início da vida, e, abruptamente, alguém morre.

Mais tarde, já em casa, viu o noticiário falar da mulher que morrera na sessão de cinema. Tinha 90 anos, morava sozinha e gozava de boa saúde. Era a hora dela, dizia um sobrinho a quem o entrevistava. Lúcia se interessou pela recém-falecida. Com idade tão avançada, vivia sozinha e ainda ia ao cinema, uma demonstração de autonomia e de vida ativa. Também sugeria personalidade. Seria ela viúva e, com a morte do marido, não quis ir morar com um dos filhos? Teria sido casada, para começar?

Por ser seu namorado um jornalista, Lúcia aprendeu com a convivência algumas noções de abordagem de pessoas. Após recorrer a ele para descobrir o endereço do sobrinho, foi até lá. Seu nome era Irene. Descobriu que a idosa era cheia de vida e muito corajosa. Jamais havia se casado, por exemplo. Vivia seus romances quando desejava, quando alguém, em sua vida, em seu trabalho, lhe chamava a atenção. Recusava casamentos, pois eles impunham uma burocracia jurídica grande demais para o seu gosto. Preferia namoros e os conservava pelo tempo que achasse que valiam a pena. Quando acabava o interesse, quando a convivência com o outro adquiria um tom de tédio, em vez do que quer que a tivesse atraído naquela pessoa, ela encerrava o contato.

Perguntou ao sobrinho se alguém já havia morado com a tia, apesar de não casarem. Ele não soube dizer. Os familiares viam esta autossuficiência como fachada para a libertinagem e, por isso, a senhora vivia a uma certa distância. A família não interagia muito com ela. Desejava moldá-la, que ela casasse, já que era assim que a vida funcionava.

Os parentes não queriam que Irene morresse sozinha devido a alguma situação que não causaria morte se alguém estivesse lá para socorrê-la. Para evitar situações de desamparo como essa, precisava de um porto seguro, de alguém que estivesse presente rotineiramente. Tanto ela, quanto o marido hipotético desejado pela família, precisavam de filhos, pois, com a idade, as coisas ficam mais difíceis.

Irene considerava tudo aquilo uma covardia. Esse casamento por conveniência, esse medo do que aconteceria quando ela morresse, eram apequenadores de pessoas. Elas gastavam tempo demais buscando aplainar as asperezas da vida, em vez de aprender a lidar com elas. Muitas vezes era preciso conviver, não consertar.

Que importa se ela morreria sozinha? Já estaria morta mesmo. Questões vãs. Lúcia se surpreendia com a concentração de características desprezadas pela sociedade em uma só pessoa. A velhinha, que pareceu tão frágil e fraca ao desabar para o fim ao seu lado, no cinema, se revelava, cada vez mais, precisamente o contrário.

O sobrinho conta que, uma vez, ao encontrar a tia na cozinha, em uma das poucas ocasiões em que ela visitava a mãe dele, lhe perguntou por que ela se isolava. Ela respondeu que eram as pessoas que se afastavam dela, não o contrário. Que as pessoas se irritam com aqueles que adotam padrões de vida muito individuais, por em geral se sentirem humilhadas, reduzidas a seres comuns, com o tratamento especial que pessoas como ela davam a si mesmas.

Assim, ela vivia sua bissexualidade, seu não-desejo por filhos ou casamento, seu interesse por viver o momento, planejando apenas o suficiente para a manutenção dessa espontaneidade. Depois de comprar sua casa e poupar mensalmente uma quantidade determinada para se manter, se dedicava a si mesma, ao que gostava e filho e casamento seriam um entrave ao seu modo de viver. Essa mera fidelidade a si mesma fazia aqueles que não tinham tal atitude por medo da sociedade, da carência ou da solidão a detestarem. Queriam que ela se conformasse como eles, pois a visão de sua felicidade diferente era um acinte diário.

Esse pequeno contato mais particular com sua tia fez o sobrinho se dar conta do quão imerso estava na versão da história contada por sua mãe e pelos outros familiares que eram como a mãe e, por isso, estavam por ali com mais frequência. Até absorveu um pouco da rebeldia e decidiu fazer Direito, e não engenharia como seus irmãos e seu pai fizeram e esperavam que ele fizesse. Não que ele fosse se tornar tão imune às reprovações da família e dos outros como sua tia, mas uma pequena dose de drama não deveria impedi-lo de seguir seus sonhos. Ele queria fazer mais pela sociedade que prédios e máquinas, e viu no Direito uma profissão que reunia o dinheiro que a família queria que ele ganhasse e a esfera social na qual ele sempre esteve interessado.

Lúcia deixou a casa da família da senhora profundamente impressionada. Viu-se pensando no impacto que alguém pode ter apenas por existir de uma forma diferente. Especialmente nas fraturas expostas nos comportamentos daqueles que mais criticam os que vivem essa diferença. Os parentes de Irene estavam supostamente preocupados com as consequências pragmáticas de sua solidão, mas foram os primeiros a se afastar. Lúcia não pôde deixar de pensar que a família parecia mais interessada em moldar Irene aos valores que consideravam corretos que com o bem-estar desta.

A vida da idosa também encontrava eco nas profundezas de Lúcia. Há muito tempo achava que a relação com o namorado estava desgastada, mas não só havia se acostumado a ele, como também sempre que expressava o sentimento de desgaste, o ouvinte lhe dizia que era assim mesmo, que em qualquer relação, por melhor que seja a pessoa com quem se relacione, acontece isso. Depois de conhecer a história de Irene, passou a refletir se esses indivíduos, sempre “bem-intencionados”, assim, com muitas aspas mesmo, constituíam uma cola que mantinha presas, umas às outras, pessoas que já não queriam estar juntas.

Uma frase do sobrinho, sobre a vida de Irene, pulsava em sua mente: “quando a convivência com o outro adquiria um tom de tédio, em vez do que quer que a tivesse atraído naquela pessoa, ela encerrava o contato”. Imediatamente, se perguntou por que queria largar o namorado e se ele ainda tinha as características que a atraíram. Não que ele não pudesse mudar, já que ela não namora um fóssil, e sim se, manifestadas em atitudes diferentes, havia nele a coragem, a diligência, e a paixão pela vida que outrora a atraíram.

Havia uma bola de neve reflexiva em sua cabeça. Ao pensar em começo, constatou que, lá, ela viu nele um ser livre, que se tornou presente porque havia nele características que ela admirava naquele momento, físicas e mentais. Muitas vezes, o tempo leva essas características do início e só sobram os rótulos de namorado e namorada que surgiram depois. Aí entra a cola, que os manteria juntos sempre que essa sensação estranha, causada pelo sumiço dos aspectos atraentes no outro, resolvesse incomodar.

Ao chegar a casa, o namorado a esperava na porta. Tinha tocado a campainha, supondo que a amada já tivesse chegado. Disse estar muito interessado em como foi à visita à família da idosa, mas que primeiro havia uma revelação importante. Lúcia nem quis ouvir e anunciou o término do namoro. Ela não queria ser um cliché ambulante, mas percebeu que já o era. E decidiu fazer o que queria há muito tempo, mas nunca o fez. Percebeu, no caminho, que ele já não era o homem que ela admirava no começo e também se viu pensando que não sabe mais o que esperar da vida. Nesse contexto, queria um tempo para si mesma, e a revelação do namorado não mais a interessava.

Ele surtou. Perguntou o motivo, gritou de frustração. Mostrou a ela que a revelação era uma aliança de casamento. Ele achava que era hora de ambos passarem a morar juntos, oficializarem a união, receber benefícios do governo, ter filhos… Mas ela foi inflexível. Por mais que o amasse, será que o amava mesmo, uma vez que desejou o fim do relacionamento tantas vezes?, ela não podia pensar em fortalecer aquela união. Se já seria difícil a separação naquele momento, seria muito pior depois de casada, morando junto, tendo perdido o tutano da juventude e a prática de morar sozinha. Se havia um momento de se livrar dessa vida pasteurizada, e pelo menos tentar uma melhor, era agora.

O namorado exigia motivos. Ambos ali, na porta da casa dela. Em outra ocasião, teriam entrado, conversado, tido uma noite vista como noite romântica aos olhos de muita gente. Mas não podia entrar em casa hoje. A notícia que estava dando a ele era pesada demais, especialmente porque ela não tinha em mente uma justificação elaborada. Então, queria anunciar sua decisão ali mesmo, na rua, sob a possibilidade de estarem sendo observados, motivo pelo qual haveria ao menos o mínimo de autocontrole da parte dele, ainda que inconscientemente. Em último caso, a céu aberto era mais fácil fugir.

Ela disse que não o amava mais e que isso era suficiente. Ele se calou, ficou vermelho de ódio, de frustração, de ansiedade. Não acreditava na situação. Estava perplexo e paralisado. Ela não sabia se não o amava mesmo, mas diante de um homem disposto a casar, ela não podia manifestar toda a complexidade de sua mente. Era melhor se livrar dele naquele momento, quando o conhecimento da vida dessa mulher e a morte dela a chocaram o bastante para sair da inércia. Continuar naquilo podia lhe render um casamento e, chocada com a sua sinceridade interna, aquilo lhe parecia um pesadelo.

A tranquilidade e a fé

“(…)tudo veio a ser; não há fatos eternos: assim como não há verdades absolutas”. [1] Esta proposição, de Nietzsche, é a representação adequada dos movimentos intelectuais que caracterizam o pensamento filosófico de Oswaldo Porchat. Guiado por constante autocrítica, Porchat esteve sempre disposto a rever os valores e os conceitos que internalizou para levar uma vida o mais objetiva possível.

Cristão fervoroso quando jovem, Porchat busca na razão a catalisação e a fundamentação de sua fé. Para ele, esta podia e devia estar lado a lado com a razão e, por isso, era adequado usar esta para fortalecer aquela. No entanto, a revisão constante dos dogmas religiosos aos quais cedeu na infância o levou ao ateísmo.

A perda da fé deixou um vazio em Porchat. Ela lhe proporcionava uma sensação de plenitude, pois junto com esta vinha a certeza da posse da Verdade. Quando a crença em deus e na religião cristã ruiu, também desapareceu a tranquilidade que a posse da verdade proporcionava. Assim, o autor busca na filosofia a Verdade que perdera.

Posicionando-se de fora daquela para escolher imparcialmente uma filosofia como um cliente diante de uma vitrine, ele viu uma

pluralidade de sistemas, concepções e atitudes que se sucedem no tempo histórico com diferentes graus e matizes de interpenetração, sem nenhuma unidade de método ou de temática e sem outro liame além de uma generalidade comum de intenção, conceitualmente indeterminável, e da comum pretensão, fundamentada em análoga confiança nos discursos de que se servem e na razão que os ordena, de corresponder de modo exclusivo e pertinente à significação, definida cada vez como unívoca, do nome comum que as designa.[2]

Assim, escolher uma filosofia implicava negar as outras. Se todas se apresentavam como a única edição da Realidade e da Verdade, como escolher uma delas racionalmente? Que critérios usar?

Nota, porém, que não existe uma decisão imparcial. O autor afirma que cada filosofia inventa uma lógica própria para fundamentar o seu discurso, sendo necessário, para estudar corretamente os sistemas filosóficos e escolher um deles racionalmente após entendê-los com precisão, mergulhar em cada um deles e refazer, de dentro, por meio da lógica interna criada por cada um, seus movimentos de pensamento. Essa forma de ler as filosofias impossibilita uma escolha racional.

Se é necessário mergulhar em cada uma delas e refazer de dentro seus movimentos de pensamento, não há elemento além da pretensão à verdade que percorra todas elas e sirva ipso facto de critério de desempate. Mais do que isso, ler os sistemas filosóficos por meio de prismas que não aqueles instituídos por eles, como a lógica como ciência formal, com o intuito de criar, à força, um critério de desempate é deformá-los e apreendê-los de forma diferente da que seus autores propuseram.

Desse modo, haveria uma decisão não entre as filosofias como foram pensadas por seus autores, mas entre o resultado amorfo proporcionado pelo filtro inadequado de que o leitor fez uso. Também não é possível ver nos dados empíricos critério de desempate, pois cada filosofia os absorve de maneira diferente em seu esqueleto de pensamento, impedindo, assim, o leitor de utilizá-los como escala à qual os sistemas filosóficos seriam comparados.

Conforme prossegue sua busca pela Verdade na Filosofia, Porchat descobre que os céticos antigos já haviam constatado essa impossibilidade de decidir, de forma imparcial, entre uma das várias edições da Verdade que se ofereciam ao indivíduo. A maior colaboração da sofística à Filosofia é a afirmação de que é possível demonstrar qualquer proposição em filosofia se se domina adequadamente a arte da argumentação. Os céticos, de posse dessa constatação sofística, perceberam ser possível opor a qualquer discurso outro de igual poder persuasivo.

Assim, fica impossível uma decisão fundamentada, uma vez que a balança argumentativa não pende para nenhum dos lados. Os céticos chamam a essa indecidibilidade, fundada na equipotência (isosthéneia) das fundamentações de teses opostas, de diaphonia. Devido a esta, propõem a Sképsis, a permanente investigação, análise e refutação de teses pretensamente verdadeiras. O constante processo de Sképsis seguida de diaphonia conduz à epokhé, a suspenção do juízo, o estado de não adesão a crenças opostas. O resultado da manutenção da suspensão do juízo é a ataraxía, a serenidade da alma nas questões opináveis.

Mas Porchat não vê atrativo na Sképsis. “Por que prosseguir na busca, quando nenhuma esperança se justifica e não mais se tem que a experiência repetida do fracasso?”, [3]diz. Por isso, os céticos eram filósofos aos olhos de Porchat e seu pensamento também integrava o conflito das filosofias.

Desse modo, diante da diaphonia, ao contrário dos céticos, “somente (…) restará o ato heróico da recusa não-filosófica e filosoficamente injustificável da filosofia.” [4]Porchat, então, deixa de filosofar e volta à vida comum.

Em sua redescoberta da vida comum, Porchat a vive de forma nova. Sente uma intensidade ao praticar cada atitude e ao se deixar guiar pelas crenças culturais, sociais e políticas às quais estava exposto, sem grandes fundamentações. Alegava que os homens comuns acreditavam espontaneamente e se sentia feliz em adotar a mesma atitude. Não via sentido em antepor às crenças uma fundamentação filosófica, nem em fingir que não cria.

Percebe também que esse crer espontaneamente dá origem a uma gama de crenças compartilhada pela maioria de seus semelhantes, os homens comuns, e que, prevalecendo em um determinado contexto social, se apresentava como naturais, não implicando reflexões ou questionamentos filosóficos. Chamava a esse conjunto de visão comum de mundo.

A espontaneidade e as múltiplas fontes que alimentam a visão comum de mundo faziam dela necessariamente incompleta e em constante modificação. Imperfeita como o ser humano e fruto de um contexto social, ela se modificava conforme este o fazia e também com o passar do tempo. Sua constante auto-análise e autocrítica, então, fazem Porchat retornar à filosofia.

Em certo momento, constata que não é preciso, para filosofar, ter a pretensão de estabelecer o Discurso Derradeiro nem possuir nenhuma das outras mazelas das quais as outras filosofias sofrem. Verifica que a vida comum, construída diariamente pelos homens e que abastece a visão de mundo, pode alimentar também uma filosofia.

Essa nova filosofia, nascida da reflexão crítica sobre as outras filosofias, sobre a diaphonía que elas instauram e sobre o mundo em que seu autor se insere, teria os pés no chão. Consciente de sua essencial imperfeição, ela não se propõe a estabelecer o real nem a se tornar o discurso definitivo a que os homens devem aderir. Constitui-se usando o discurso do homem comum com uma dose a mais de sofisticação.

É uma filosofia sem desmesura (hýbris), que não se impõe. No máximo, apresenta-se como um dos vários discursos possíveis. Seu autor não a considera a edição cabal da Verdade, e sim a opinião verdadeira, partindo de um homem comum e imperfeito, objeto de erro neste ou naquele momento da vida. Ela entra no conflito das filosofias com uma postura diferente, não tética.

Essa outra postura acarreta também o reconhecimento da prescindibilidade do discurso em relação à realidade. Enquanto muitas outras filosofias se viam como criadoras do Real, a filosofia da visão comum de mundo se sabe reconhecedora deste. Ao expressar seu pensamento, ela abordará o mundo, que lhe é pressuposto, passando este a ser incluído nos movimentos lógicos que se pretende instituir. Essa filosofia, então, se alimenta do mundo; e não este, dela.

Convém não esquecer, contudo, por que Porchat se interessou pela Filosofia: para reaver a tranquilidade que a posse da Verdade propiciava. Desse modo, a tentativa de proporcionar dignidade filosófica à visão comum de mundo, apresentando-a como a verdadeira filosofia, embora não de forma derradeira, mostra que o autor ainda buscava, quando idealizou tal filosofia, por aquela tranquilidade.

No processo de organização da visão comum de mundo como filosofia dessa visão, porém, dada sua constante autocrítica, Porchat percebe que esta também não lhe proporciona a tranquilidade que busca. Constata, ademais, que sua avaliação anterior do ceticismo está equivocada, o que havia resultado, por isso, em uma conclusão errônea sobre esse ceticismo.

Não fazia sentido para Porchat, deparando-se a cada instante com a diaphonía, engajar-se na Sképsis. Além disso, esta o levaria a sempre suspender o juízo diante das mais variadas asserções do cotidiano, o que lhe parecia assaz incompatível com a vida comum que por tantos anos vinha exaltando. A Sképsis implicava crenças, não sendo possível dizer sem afirmar, como os céticos pretendiam.

Porchat também não achava satisfatória a mera descrição do que aparecia ao filósofo, do phainómenon. Nem via sentido na metáfora da escada de que os céticos se utilizavam. A filosofia cética seria um conjunto das mais variadas proposições contrárias aos juízos téticos de que as filosofias dogmáticas se valiam. A única utilidade de tais preposições seria a de elevar o filósofo além das asserções pretensamente verdadeiras. Deve-se jogar fora a escada após tê-la utilizado. Mas por que utilizar uma escada que leva ao nada quando se busca a apaziguadora posse da Verdade? Para que escalar da angústia comum à sua versão eloquente? Porchat, por isso, considerava os céticos como filósofos que, ao contrário dele, não haviam conseguido não filosofar. Essas objeções, todavia, são fruto de sua má-compreensão do ceticismo. O melhor entendimento dessa filosofia trará não a sua recusa, mas a adesão a esta por Porchat.

“Por que prosseguir na busca, quando nenhuma esperança se justifica e não mais se tem que a experiência repetida do fracasso?” [5]dizia o Porchat de outrora, ao rejeitar a investigação constante que os céticos propunham. Mas ele buscava preencher o vazio que a perda da verdade havia causado, e, por isso, falava em fracasso.

O Porchat desse momento, em sua empreitada por promover filosoficamente a visão comum de mundo, sem que esta nova filosofia fosse acometida pelas mazelas de que as outras sofrem, se engajou, talvez sem perceber, na investigação constante e profunda, a Sképsis. A verdade que buscava colocar no vazio deixado pela religião devia passar pelo crivo de uma racionalidade crítica e imparcial. Mas Porchat havia concluído que não é possível escolher entre as várias filosofias que se ofereciam. A agulha da bússola da verdade permanecia sempre rodando, não havendo uma filosofia particular com maior poder racional que  a atraísse com maior intensidade.

Pode-se dizer, assim, que a constatação da indecidibilidade do conflito em si mesma constitui uma epokhé. Pois aquele que tenta decidir está incapaz de escolher e prossegue tentando. Essa epokhé inconsciente na Odisseia pela tranquilidade da verdade nas filosofias e depois na instituição de sua filosofia da visão comum de mundo e o fracasso desses empreendimentos acabam tendo a consequência imprevista de produzir a tranquilidade da posse da verdade sem que essa verdade tenha sido encontrada:

Essa experiência repetida da suspensão necessária do juízo, essa impossibilidade sempre renovada de qualquer decisão fazem-nos perder pouco a pouco o anseio antigo por uma verdade fugidia. E nos ocorrerá talvez, se a experiência se renova suficientes vezes, deparar, como consequência por assim dizer casual da mesma epokhé, aquela tranquilidade que outrora buscáramos na posse impossível da verdade. Isto porque não mais ansiamos pelo que não mais parece caber buscar.[6]

Assim, a suspensão do juízo, antes tão improvável, acaba não apenas se revelando a atitude que Porchat sempre tivera, como algo que não o impedia de se expressar. Como se passou, então, a mudança de quem não achava possível dizer sem asserir para esta nova postura, a da epokhé espontânea que não o impediu de viver?

Porchat percebe que nenhuma suspensão do juízo poderia impedi-lo de experimentar o que aparece. Que a experiência de mundo se lhe impõe irrecusavelmente, que ao sentar em sua sala e escrever sobre algo, ele, sob epokhé ou não, tem a experiência sensível da caneta que segura, dos caracteres que vê, do ar que respira. Tem, outrossim, a experiência inteligível da localização geográfica em que se encontra, e de que a sua cozinha não deixou de existir apenas por não estar ao alcance de seus sentidos.

Constata, assim, que a exposição do que aparece, antes recusada por ele, é na verdade o único discurso possível:

(…)resta-nos sempre – e isso não podemos negar ou recusar – que nos aparece que coisas e eventos estão aí, que nos envolvem e que neles estamos mergulhados. Isso é o mundo. E essa experiência-de-mundo se acompanha de uma visão-de-mundo, de um discurso que diz aquela experiência e que, aliás, não conseguimos dela inteiramente distinguir.[7]

Essa mesma irrecusabilidade do que aparece é o que faz possível “dizer sem asserir”, outra objeção de Porchat aos céticos. Ao expor o que aparece, o interlocutor não está asserindo ou propondo nenhum discurso tético. Apenas narra a experiência irrecusável que se apresenta.

Na mesma linha, outra constatação de Porchat, ao inaugurar seu neopirronismo, é a diferença entre o contexto grego e aquele em que se insere. O ceticismo grego contestava crenças e a pretensão dos filósofos de, baseados na pura razão especulativa, produzir conhecimento seguro sobre o mundo. Mas a ciência da época de Porchat é outra.

Tendo questionado as formas dogmáticas do saber em seus vários domínios, tendo o juízo suspenso sobre toda epistéme, o cético pode fazer a apologia das tékhnai, de que são exemplos, entre outros, a medicina, a agricultura, a astronomia empírica. As tékhnai não se preocupam com o Real das filosofias dogmáticas, elas lidam com os fenômenos, que elas observam e sistematizam, procurando detectar suas regularidades e encadeamentos.[8](grifos do autor desta dissertação)

O “fenômeno” é, para Porchat e pirrônicos, aquilo que lhes aparece e que, em tese, aparece à grande parte dos homens. A suspensão do juízo, como dito, está aplicada às teorias da razão especulativa, mas não ao que aparece ao homem. Assim, as ciências nascidas do simples estudo do fenômeno, almejando não a construção de um real que lhes parece verdadeiro, mas sim a sistematização e organização de um conhecimento dos fenômenos, buscando uma maior habilidade de lidar com eles, está em perfeita harmonia com a epokhé cética.

Nesse sentido, o neopirronismo pode ser também chamado de empirismo cético, uma filosofia não só livre de dogmatização, mas que visa à promoção de um conhecimento focado na melhor interação dos homens com a vida e com os conhecimentos que intentam catalisar à qualidade desta.

A metáfora da escada, agora, ressurge renovada. Por meio da filosofia cética, não só escala-se para além dos dogmatismos, mas se apreende o grande poder do discurso e seus limites. Ao saber as limitações e potências deste, é possível usá-lo melhor. Essa filosofia capacita o indivíduo para escapar das armadilhas dogmáticas.

E, por isso mesmo, céticos são, sim, filósofos, mas a natureza purgante de sua filosofia faz com que Porchat com eles simpatize. Assim como o purgante que, ao limpar o organismo de impurezas, também é eliminado com elas, a filosofia cética, ainda que mais uma na vitrine da diaphonia, é a única que traz ao indivíduo crítico e rigoroso a mesma tranquilidade que busca na posse da Verdade. Pois lhe mostra que há outras formas de se tranquilizar.


[1] NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano I, “Das coisas primeiras e últimas”, trad. Rubens Rodrigues Torres Filho, col. Os Pensadores, 1974.

[2] PORCHAT PEREIRA, O. Rumo ao ceticismo. São Paulo: Unesp, 2007, p. 16.

[3] Idem. Ibidem, p. 31.

[4] Idem. Ibidem, p. 23

[5] Idem. Ibidem, p. 31.

[6] Idem. Ibidem, p. 119.

[7] Idem. Ibidem, p. 265.

[8] Idem. Ibidem, p. 267

Não será o mesmo

“Não sei se depois disso conseguirei continuar minha relação com fulano. As coisas não serão as mesmas”. Variações dessa máxima percorrem frequentemente as bocas e os corações de inúmeras pessoas  mundo afora. À ideia de que um fato X mudou permanentemente a dinâmica de uma interação e que, por isso, esta não poderá mais existir falta maturidade.

Confiança, dependência, medo são os motivos usados pra sustentar a ideia de que uma traição ou um comportamento inesperado de alguém impedem a continuidade do contato com essa pessoa. No caso de um relacionamento amoroso, a pessoa fica incapaz de confiar na fidelidade do outro e, por isso, a relação se torna insustentável,  o que leva ao seu fim. O traído, ao antever essa suposta insustentabilidade, anuncia o fim por antecipação. “Melhor encerrar agora, que doerá menos.” Por trás dessa decisão, porém, longe de cautela e bom senso, há muita desinformação e covardia.

“(..)existir consiste em mudar, mudar, em amadurecer, amadurecer, em criar-se indefinidamente a si mesmo.”, diz Bergson. Sendo assim, uma suposta inabilidade de manter uma relação porque esta não se manteve à altura de suas expectativas é ingenuidade.  Diferente da interação com um produto que se compra, tendo este sido adquirido para cumprir uma função, ao começar uma relação não comercial não existe uma função definida. Existem expectativas que podem ou não se cumprir. Cabe a quem embarca nessa lidar adequadamente com elas.

Sendo o homem um ser de mudança, uma relação de equilíbrio entre dois deles precisa incluir essa característica na dinâmica do jogo. Consequentemente, quando diante de algo inesperado, ao invés de se isolar o autor dessa surpresa, se ajustem as expectativas que se tinha deste à realidade.  Expectativa é  a situação de quem espera a incidência de um evento baseado em sua probabilidade de ocorrência e, sendo assim, não é certeza de nada. Por isso, um relacionamento é uma decisão baseada em uma possibilidade. Quando esta não acontece, faz-se necessária a correção das expectativas e, por conseguinte, das decisões baseadas nestas.

Em outras palavras, essa correção do modo como são abordadas as expectativas nada mais é que a inclusão, nestas, do acaso. Com isso, impedem-se o choque e a ira que vêm do não cumprimento delas. Assim, a relação não será mais a mesma, mas de forma nenhuma isso implica má qualidade desta. Um recomeço, com premissas mais embasadas em comportamento real e menos em expectativas, tornará a relação mais plausível e menos assustadora.

Os quatro preceitos do método de Descartes

Descartes diz que para a busca da verdade é necessário um método que está fundamentado em quatro preceitos.  Aqui estão eles, nas palavras do próprio Descartes:

O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.

O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las.

O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.

E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir.

O primeiro preceito visa, então, evitar duas más condutas na busca pela verdade: a precipitação e a prevenção. A primeira consiste em julgar sem ter chegado à evidência e a segunda, em insistir nos prejuízos da infância. O primeiro preceito mostra, também, a solução para evitar tais mazelas: a dúvida. Ou seja, uma vez que esta existe e motiva aquele que busca pela verdade a verificar o conceito que se quer mostrar verdadeiro de todas as formas racionalmente possíveis, se este passar nos testes e não mais for alvo de nenhuma dúvida, ele se mostrará efetivamente verdadeiro, porque foi comprovado por meio de análise feita pelo intelecto, e não por meio de conceitos não testados – precipitação – ou simplesmente absorvidos sem reflexão – prevenção.

O segundo preceito diz que é necessário dividir um conceito no maior número de partes possível para então começar a analisá-lo. Em termos contemporâneos pode-se concretizar esse conceito por meio do exemplo químico das superfícies de contato.  Superfície de contato é toda a área de um sólido em que ele pode ser tocado.  A velocidade de uma reação química depende da superfície de contato. Quanto maior esta maior aquela. Nos sólidos, as reações químicas começam na superfície externa para depois alcançarem seu interior. A superfície externa é a que propicia o contato direto entre os reagentes.  Ao partir-se um sólido ao meio soma-se à superfície externa a região antes interna que agora foi exposta. É por isso que um produto em pó se dissolve muito mais rápido do que aquele em barra. Como o pó nada mais é do que uma barra em milhares de pedaços, a superfície de contato está milhares de vezes aumentada e portanto a velocidade da reação também está. Trazendo o exemplo para o mundo de Descartes, a barra é um conceito. Será muito mais fácil entendê-lo se este for dividido em várias partes assim como o pó é mais facilmente absorvido.

O terceiro diz que é necessário conduzir os pensamentos em ordem crescente de grau de dificuldade, ou seja, os conceitos mais difíceis dependem dos mais fáceis. Pode-se fazer um paralelo com a leitura e a escrita. Para se aprender a ler é primeiro necessário saber as letras do alfabeto. Depois a maneira como as sílabas são compostas, as regras de acentuação e pontuação, figuras de linguagem e assim sucessivamente, mas todas ferramentas da língua dependem do conhecimento do básico alfabeto. Pode-se usar ainda o exemplo da matemática. Para resolver problemas complexos de geometria ou álgebra, é necessário o conhecimento das quatro operações básicas.

Para explicar o quarto preceito segue-se explicação do próprio Descartes:

Para o acabamento da ciência, é preciso passar em revista, uma por uma, todas as coisas que se relacionam com a nossa meta por um movimento de pensamento contínuo e sem nenhuma interrupção, e é preciso abarcá-las numa enumeração suficiente e metódica.

A observação do que é proposto aqui é necessária para admitir como certas essas verdades que, como o dissemos mais acima, são deduzidas dos princípios primeiros e conhecidos por si sós, mas não imediatamente. Com efeito, isso algumas vezes é feito por um encadeamento de conseqüências tão longo que, depois de ter atingido essas verdades, não é fácil nos lembrar de todo o caminho que a elas nos conduziu; é por isso que dizemos que se deve remediar a fraqueza da memória com uma espécie de movimento contínuo do pensamento.

De acordo com esse principio o conhecimento deve ser visto e revisado várias vezes de forma minuciosa e metódica garantindo assim que nenhum dado foi omitido e depois deve ser exposto de maneira elementar e em ordem para que seja guardado na mente de forma permanente e clara. Temos, então, com esses quatro preceitos, a base do método de Descartes.