Conselho de um cartunista

Bill Watterson

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Maquiavel versus Antígona nas redações

Renato Janine Ribeiro

No curso de jornalismo da ESPM, onde tenho lecionado ética, me surpreendi ao ver que a maior parte dos alunos entregou trabalhos sobre Maquiavel; as alunas, sobre Antígona. É claro que, como o pensador italiano disse que “a fortuna é mulher” e ama quem a espanca, e como Antígona é feminina, poderia haver uma solidariedade respectivamente machista e feminista (lembrando que o primeiro termo é pejorativo, o segundo, descritivo ou mesmo elogioso). No curso, repudiei a pecha de “maquiavélico” para o filósofo, mostrando que ele descreve o poder como é, sem fantasias; mesmo assim, os homens se sentiram mais identificados com a perspectiva do poder, que é a dele. Maquiavel é um dos poucos pensadores a colocar seu leitor no lugar do poder, no lugar do príncipe ou rei, como então se entendia; a maior parte dos teóricos da política situava o leitor como súdito, em tempos monárquicos, ou como cidadão, em épocas republicanas. Há duas formas de pensar o poder, ex parte populi (da perspectiva do povo) ou ex parte principe (do ângulo do príncipe, do governante). Maquiavel pensa do viés do príncipe, mas a novidade é que seu governante é novo, recém-tomou o poder, pode ser qualquer um de nós: é um príncipe que até ontem era do povo. Por isso, sua tarefa é difícil: precisa persuadir os súditos a obedecê-lo, a ele, um homem novo, sem tradição. Hoje, todo governante é novo e, eleito, precisa persuadir a sociedade a respeitá-lo, porque – quanto mais democrática for a sociedade e menos Júniores ou Filhos eleger – mais serão novos os seus presidentes.
O interessante em estudar Maquiavel é tentar entender como funciona o poder, de dentro. O moralismo dominante em nossos dias barra a compreensão da política, justamente porque lhe impõe critérios que não funcionam nela. A oposição assim acusa o governo de fazer o que ela, no seu lugar, fez ou fará. Já Maquiavel não tem medo de colocar o dedo nesta ferida.
O caso de Antígona – personagem da peça homônima de Sófocles, que data do século V a.C. – é totalmente diferente: ela se opõe ao poder, em nome das leis divinas ou (diríamos nós, hoje, após a peça de mesmo nome de Jean Anouilh) da consciência moral. É digno de nota que a primeira personagem da cultura ocidental a enfrentar radicalmente o poder de Estado seja uma mulher. É como dizer: ante um poder masculino, que privilegia a razão de Estado, valores autênticos são assumidos pelas mulheres.
Por que minhas alunas preferiram Antígona, meus alunos Maquiavel (claro que sempre com exceções)? Há o óbvio, o poder geralmente foi exercido pelos homens, em nosso mundo. Mulheres ficavam na vida privada. Ensinavam valores aos filhos. Os homens aprendiam que, para vencer na vida ou simplesmente sobreviver, precisavam relativizar os valores. Aprendiam que, nas horas decisivas, o realismo vencia a ética. “Sua mãe é uma santa, mas na hora do vamos-ver não dá para ser assim, meu filho”; e por isso matavam, subornavam, traíam. Coloquei os verbos no passado, mas podemos passar ao presente – o problema continua. Só que hoje homens e mulheres estão próximos; relativizar o valor, priorizar o sucesso acontece com todos; daí, a sensação desconfortante de que a ética sumiu, porque nem mais a mãe, nem mais a mulher, cuida dela.
Maquiavel mostra bem este mundo em que a regra não tem mais lugar garantido e a decisão de violá-la se toma inúmeras vezes; o que podemos aprender com ele é que a exceção à regra não é mero desregramento, mas tem sua lógica. Ele nos dá a chance de sair do moralismo hipócrita de quem vê o cisco no olho do outro e finge não enxergar a trave no seu. Já Antígona expressa a rebeldia no que tem de mais belo. O que, porém, muitos e muitas esquecem é que essa rebelde pagou um preço alto. Por ser fiel a seus ideais, foi executada. Hoje, a questão não é tanto termos rebeldes sem causa, é termos rebeldes sem custo: gente que pensa que infringir a lei se faz por capricho (não, como no caso de Antígona, com plena consciência) e que não se paga nada por isso. Corremos o risco de viver um Maquiavel e uma Antígona baratos, sem valor.

A culpa é dos games!

Mateus Lacerda Sá Teles

Fiquei chocado, assim como todos que conheço, quando soube da notícia do massacre em Realengo. Nunca imaginei um acontecimento desses no Brasil, parecia algo distante, uma “moda” americana.

E não esperava (mas devia ter esperado, já que está acontecendo tudo como nos EUA) que a mídia sensacionalista torcesse esse pano até o final, criando artigos e reportagens cada vez mais tendenciosos e sem embasamento.

“• Approximately one-quarter of the attackers had exhibited an interest in violent movies (27 percent, n=11).

• Approximately one-quarter of the attackers had exhibited an interest in violent books (24 percent, n=10).

• One-eighth of the attackers exhibited an interest in violent video games (12 percent, n=5).

• The largest group of attackers exhibited an interest in violence in their own writings, such as poems, essays, or journal entries (37 percent, n=15).”[1]

A informação mostra que 27% dos atiradores se interessavam por filmes violentos, 24% se interessavam por livros violentos e apenas 12% se interessavam por videogames. A maioria exibiu interesse em violência por meio de seus próprios escritos, como poemas, dissertações e diários (37%).

Mais importante:

“Almost three-quarters of the attackers felt persecuted, bullied, threatened, attacked, or injured by others prior to the incident (71percent, n=29).”

71% dos atiradores se sentiam perseguidos, sofriam bullying, eram ameaçados, atacados ou feridos por outros, antes do incidente.

“• Although most attackers had not received a formal mental health evaluation or diagnosis, most attackers exhibited a history of suicide attempts or suicidal thoughts at some point prior to their attack (78 percent, n=32). More than half of the attackers had a documented history of feeling extremely depressed or desperate (61 percent, n=25).

• Approximately one-quarter of the attackers had a known history of alcohol or substance abuse (24 percent, n=10).

• The only information collected that would indicate whether attackers had been prescribed psychiatric medications concerned medication non- compliance (i.e., failure to take medication as prescribed). Ten percent of the attackers (n=4) were known to be non-compliant with prescribed psychiatric medications.”

Apesar de a maioria dos atiradores não ter passado por avaliação ou diagnose mental formal, a maior parte deles apresentou um histórico de tentativas de suicídio ou pensamentos suicidas em algum momento anterior ao ataque (78%). Mais da metade tinha um histórico documentado por estar deprimido ou desesperado (61%). 24% tinham histórico de abuso de álcool ou narcóticos. Sabia-se que 10% recusavam a medicação psiquiátrica prescrita.

Destrinchando a informação, temos os importantes fatos de que: a maioria sofria de depressão e tinha tendências suicidas, um quarto abusava de álcool ou drogas, e 37% exprimiam opiniões e ideias violentas em seus escritos. Apenas 12% (aproximadamente um oitavo) se interessavam por videogames violentos, e a mídia violenta que mais despertou interesse nos assassinos foi a televisão, com 27% de interesse.
É importante notar a combinação de fatores. Essas pessoas não eram mentalmente sãs, como mostram as estatísticas, e sofriam pressão (principalmente bullying) na escola.

No estudo do FBI “The School Shooter – A Threat Assessment Perspective” (Cap III), foi compilada uma lista de características comuns aos atiradores que atacam escolas, e apenas um elemento da lista é relacionado à mídia violenta:

“Fascination with Violence-Filled Entertainment

The student demonstrates an unusual fascination with movies, TV shows, computer

games, music videos or printed material that focus intensively on themes of violence, hatred,

control, power, death, and destruction.  He may incessantly watch one movie or read and reread

one book with violent content, perhaps involving school violence.  Themes of hatred, violence,

weapons, and mass destruction recur in virtually all his activities, hobbies, and pastimes.

The student spends inordinate amounts of time playing video games with violent themes,

and seems more interested in the violent images than in the game itself.

On the Internet, the student regularly searches for web sites involving violence, weapons,

and other disturbing subjects.  There is evidence the student has downloaded and kept material

from these sites

O estudante demonstra fascínio incomum com filmes, programas de TV, jogos de computador, vídeos musicais ou material impresso que foca intensamente em temas de violência, ódio, controle, poder, morte e destruição. Ele pode incessantemente assistir a um filme ou ler e reler um livro com conteúdo violento, talvez envolvendo violência escolar. Temas de ódio, violência, armas e destruição em massa recorrem em praticamente todas as suas atividades, hobbies e passatempos. O estudante gasta enorme quantidade de tempo jogando videogames com temas violentos e parece mais interessado nas imagens violentas do que no jogo em si. Na internet, o estudante regularmente procura por web sites que envolvam violência, armas e outros assuntos perturbadores. Há evidência de que o estudante baixou e manteve guardado material desses sites.

Esse único ponto que mostra os videogames como relacionados ao assunto, está lado a lado com livros, música e filmes, e junto também vemos a obsessão que o assassino tem por determinados temas e materiais específicos. E vale dizer que o próprio material do FBI enfatiza que não se deve usar apenas um item como sinal a ser relacionado com a violência ou com os crimes em si (logo antes da lista).

Ainda há um ponto que as pessoas colocam contra os games, uma tecla em que se bate o tempo todo: “Como podem vender produtos para crianças com temas tão violentos? Que horror!”
O fato é: não vendem. Não são produtos para crianças.
Fiz uma tabela comparativa das classificações indicativas do Brasil e dos EUA:

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Vamos ver os mais acusados de serem os terríveis jogos que destroem as mentes de nossas crianças e suas classificações indicativas:

GTA 1, 2, 3, Vice City, San Andreas e IV: todos receberam classificação Mature (17 ou mais, aproximado do nosso 16).
Modern Warfare 2 (o famoso jogo de tiro em primeira pessoa que tem uma fase numa favela brasileira): Mature.
Counter-Strike (o CS das Lan-Houses): Mature.
Resident Evil 1, 2, 3, 4 e 5: Mature.
Bulletstorm (O novo foco dos movimentos anti-jogos): Mature.
A mensagem é óbvia: Esses NÃO são jogos para crianças. Se uma criança joga um jogo desses, ou os pais deixam por confiarem que isso não fará mal ao filho, ou não monitoram adequadamente a forma como ele se entretém. A responsabilidade é somente dos pais, e, portanto, deve ser exercida por eles.
Com isso, espero que entendam: jogos podem até ser violentos, mas esses não são para crianças. E o mais importante: eles não são a causa de comportamentos insanos e violentos e, quando são correlacionados, há ainda o envolvimento de outros fatores, como depressão, ambiente hostil, problemas psiquiátricos e abuso de álcool e drogas. E finalmente, faço um apelo: Chega de usar catástrofes com o intuito de adquirir lucro, manchetes que atraem muitos leitores não valem nada se espalham apenas medo e mentiras.

Como escrever

Meg Rosoff

Traduzido por Israel Vilas Bõas.

Revisado por Mateus Lacerda Sá Teles.

Trabalhei 15 infelizes anos com publicidade e, quando finalmente saí, não tinha nenhum resultado para mostrar, exceto alguns anúncios dos quais ninguém lembrava mais — e um flat, comprado em 1991 com meu salário magro. Fui demitida muitas vezes, por insubordinação e desgosto geral pelas pessoas e pelo processo, mas sobretudo por mim mesma, por não ter tido a coragem de me demitir e fazer algo que valesse a pena.

Assim que comecei a escrever romances, no entanto, descobri que aqueles 15 anos não haviam sido completamente desperdiçados. O que foi um alívio. Agora, penso neles como um tipo de aprendizado medieval, no qual acorrentam você a uma bancada e o obrigam a fazer coisas inferiores até que você seja competente o suficiente para produzir um sapato.

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Então, eis algumas coisas que aprendi nesse período.

  1. LEIA. Best-sellers e autores obscuros recentes, bem como autores dos séculos XVIII, XIX e XX. Shakespeare. História e ficção, memórias e livros ilustrados, tudo que é excelente e, ocasionalmente, alguma coisa que for muito ruim também. Ideias vêm de todo lugar e, além disso, se você não se interessa por livros, não deveria estar escrevendo-os.
  2. O mercado é importante. Se não há mercado, não há dinheiro (e escrever é, no final, um trabalho — um trabalho melhor que a média, mas um trabalho.)
  3. Mas… ignore o mercado enquanto você trabalha. Pessoas escrevendo apenas por dinheiro podem sempre ser apontadas numa fila de suspeitos. Elas parecem rústicas, suadas e desesperadas. O resto de nós parece apenas desesperado.
  4. Saiba escrever. Sério, ajuda.
  5. Gaste tempo pensando. Escrever só é aproximadamente 20% do trabalho. Às vezes, menos.
  6. Não há regras. Seu trabalho é quebrar as regras.
  7. Seja sábio. Saiba mais que sua audiência sobre alguma coisa – qualquer coisa.
  8. Vá direto ao ponto. A capacidade média de atenção de uma pessoa moderna é aproximadamente a metade do tamanho do que quer que se esteja interessado em contar a ela.
  9. Viva. Amplitude de conhecimento é bom, profundidade emocional é ainda melhor.
  10. Minta sobre tudo, menos paixão. Cadeiras podem falar. Porcos, voar. Mas, se você não se importar com o que está dizendo, ninguém se importará também.
  11. Ouça o que outras pessoas têm a dizer: Se quinze pessoas diferentes dizem que seu sapato é maçante, pesado e grosseiro, ele provavelmente é.
  12. Mas… quando uma editora disser “esse tipo de livro não vende,” não o jogue fora. Ninguém sabe o que vende, até que venda.
  13. Não se preocupe com suas conexões (ou falta delas). Qualquer um que seja bom de verdade chegará lá. Persistência cega e obstinada leva a melhor de vez em quando.
  14. Edite impiedosamente. Não se apaixone pela sua prosa. Deus inventou o botão delete para ajudar você.
  15. Persista. É um jogo longo (pergunte à Mary Berry sobre seus 30 anos na selva). Ninguém tem um caminho desimpedido do início ao fim. Isso vale para a vida e para a escrita.

O assunto não é você

Alex Castro

Poucos conselhos são mais perversos e canalhas do que o popular “trate os outros como gostaria de ser tratado”.

Não é verdade. Sabe por quê? Porque o outro é um outro. Porque ele teve outra vida, outras experiências. Porque ele tem outros traumas, outras necessidades. Basicamente, porque ele não é você; porque você não é, nem nunca vai ser, nem deve ser, a medida das coisas.

Se você se usa como parâmetro para qualquer coisa, já está errado. O outro deve ser tratado não como VOCÊ gostaria de ser tratado, mas como ELE merece e precisa ser tratado.

E você pergunta:

“mas, Alex, como vou saber como o outro merece e precisa ser tratado?”

Bem, para isso, o primeiro passo é sair de si mesmo e deixar de se usar de parâmetro normativo do comportamento humano. Essa é a parte fácil. Depois, abra bem os olhos e os ouvidos. Reconheça que existe um outro e que ele é bem diferente de você.

Então, conheça-o.

* * *

A primeira coisa que aprendemos em vendas é a colocar sempre o foco no cliente. A chave para vender algo é resolver um problema ou necessidade do cliente – nem que para isso você precise criar a necessidade! Idealmente, suas frases devem girar sempre em torno do cliente: “o que posso fazer para colocá-LO em um carro novo hoje mesmo?”, etc.

Os vendedores não fazem isso à toa. Funciona mesmo. Entretanto, nas últimas décadas, a técnica se espalhou. Basta ver a capa de qualquer revista: “20 maneiras de agradar SEU homem”, “A recessão: como ela afeta o SEU emprego”, “ENTENDA a crise em Ruanda”, etc.

Esse último é especialmente traiçoeiro, por ser mais discreto. Entretanto, o efeito desse “entenda” é enorme, pois ele muda totalmente o eixo da discussão. Agora, o foco não é mais a crise em Ruanda, mas VOCÊ: o importante não é mais o sofrimento daquelas pessoas pretinhas, mas que VOCÊ entenda (superficialmente, claro) mais uma coisa para poder demonstrar aos amigos como está up-to-date com assuntos internacionais. Você, você, você. Não podemos nem mais falar sobre a crise em Ruanda sem arrastar, logo quem, VOCÊ para o meio da conversa.

A falácia, naturalmente, é que você não tem nada a ver com a crise em Ruanda.

* * *

Falando em termos da classe média ocidental, vivemos em um mundo onde os jovens pais param tudo para virar escravos dos filhos: até Mozart na barriga da mãe escutam. Depois, crescem sendo os reizinhos da casa, mandando em empregados, vendo o mundo girar a sua volta. Na TV, mil anúncios voltados pra eles. Nos mercados, mil produtos feitos especialmente para fazer crianças pentelharem os pais para comprá-los. Nas escolas, os alunos agora também avaliam os professores e exigem um bom serviço em troca das suas mensalidades. Se alfabetizam lendo as mesmas notícias acima, sobre como isso ou aquilo os afeta, sempre dando a entender que a crise em Ruanda só existe para que a entendam.

Aí, crescem e se tornam adultos que, ao invés de refletir sobre os privilégios que têm, lutam pelos que não têm; que acham que uma petição online é mais que nada; que pensam que vão salvar o mundo pelo consumo responsável, comendo atum dolphin-free e palmito não-proveniente da Mata Atlântica.

Ou seja, se tornam adultos que acham, sinceramente, do fundo do coração, que tudo gira em torno deles. Que o assunto é sempre eles.

* * *

A Ana Maria Gonçalves, autora de Um Defeito de Cor, escreveu um texto belíssimo sobre a polêmica em torno da obra de Monteiro Lobato. O que a Ana percebeu foi o seguinte: uma discussão que deveria ser sobre educação e educadores, dinâmica de sala de aula e cognição infantil, racismo e preconceito, acabava sempre caindo no eu, eu, eu. Enquanto, de um lado, professores estavam falando sobre os alunos e sua capacidade de aprendizado, e como poderiam se sentir alunos negros lendo livros sobre “pretas beiçudas”, grande parte dos argumentos do outro lado eram coisas como:

“Monteiro Lobato foi um autores favoritos da MINHA infância”, “EU li esses livros quando era criança e não SOU racista”, etc.

Estavam pensando não nos efeitos do livro sobre as crianças que vão lê-lo no futuro (o que, afinal, é a questão em debate) mas sim defendendo a pureza de sua própria infância, como se dissessem

“se um livro que foi parte tão integrante e tão linda da minha vida é assim tão racista, que outras coisas pra mim tão naturais eu também vou ter que questionar?”

Em resposta a isso, Ana escreveu o texto brilhante cujo título já diz tudo: “Não É Sobre Você Que Deveríamos Falar“.

Isso sempre acontece, não?

* * *

Fala-se de racismo, e lá vem: “mas tenho amigos negros”, “já namorei uma negra”, “chamo meu amigo de Sombra e Grafite e ele nunca se importou”.

Só que sua opinião, seus amigos, suas namoradas, tudo isso é irrelevante, entende? O racismo é maior que você, já existia antes, vai continuar existindo depois. Essa discussão tem que se dar no nível da história e da sociologia, dos indicadores econômicos e das injustiças contemporâneas. Quando muito, talvez, da experiência pessoal dos negros que sofrem a discriminação, mas mesmo esta é altamente subjetiva, pois o preconceito também é introjetado pela própria comunidade. Mas, com certeza, não da sua experiência pessoal.

O assunto não é você.

* * *

Fala-se de aquecimento global, e lá vem: “mas esse ano teve uma tempestade de neve na minha cidade”.

Só que as nevascas na sua cidade são incidentais e anedóticas, entende? Eu mesmo não tenho opinião sobre aquecimento global, mas ele vai ser provado ou refutado por meio de gráficos climáticos globais sobre oscilações de temperatura ao longos dos séculos – e não pela quantidade de neve bloqueando seu carro no inverno passado.

O assunto não é você.

* * *

Fala-se de feminismo, e lá vem: “essas feministas são muito histéricas, eu jamais me incomodaria da minha chefa passar a mão na minha bunda”, “minha mãe foi dona-de-casa a vida inteira e muito feliz”.

Mas você não é mulher, entende? As mulheres ganham menos, sofrem mais violência doméstica, são estupradas, morrem em abortos clandestinos – todos fenômenos com métricas facilmente encontráveis. A discussão tem que dar através desses números. As coisas que você faria ou sentiria se estivesse no lugar delas são irrelevantes, pois você não está e nem nunca estará no lugar delas.

O assunto não é você.

* * *

Fala-se de direitos dos homossexuais, e lá vem: “não tenho nada contra mas acho que essas paradas gays me incomodam e só estigmatizam o movimento”, “minha religião diz que é pecado”, “se dois gays se beijarem em público, como vou explicar isso ao meu filho?”

Mas sua religião, sua opinião, seu incômodo, seu filho, isso tudo é irrelevante, entende? Outros cidadãos têm outras religiões, outras opiniões, outros filhos – e têm os mesmos direitos que você. Se as manifestações gays lhe incomodam, resolva o problema na terapia ou no templo. Você não saber como explicar ao seu filho um fenômeno humano ancestral como a homossexualidade não é justificativa para proibir alguém de viver seu amor.

O assunto não é você.

Memorial de leitura de Israel

O objetivo deste texto é mostrar de que maneira a leitura se tornou parte essencial de minha vida. Começo com uma citação de Descartes, na qual consta: “a leitura de todos os bons livros é qual uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversação premeditada, na qual eles nos revelam tão somente os melhores de seus pensamentos[1]”. Esse excerto é representação adequada da importância da leitura para mim, pois, como ler é um processo de decodificação, compreensão e assimilação mental de uma mensagem, devido à minha tentativa de escolher, à moda de Descartes, precisamente os livros que se destacaram em cada século, a leitura se torna a absorção de movimentos de pensamento de alta qualidade. Assim, em tese, eu posso viver uma vida menos dura.

A forma como esse processo é realizado foi mudando com o tempo, dependendo da fase da formação escolar em que eu me encontrava. Durante a educação básica, não havia tanta escolha de minha parte. Para atingir a habilidade necessária para encarar textos mais complexos, era preciso passar por alfabetização e, depois, por um refinamento desse saber recém-adquirido. O processo se dava de forma artesanal e repetitiva, consistindo predominantemente de três práticas. Uma delas era responder a questões, procurando em textos, figuras, símbolos e qualquer outro meio de passar a mensagem, escolhido pelos educadores,  a parte da mensagem que serviria como resolução da pergunta realizada. Outra era responder a perguntas cujas respostas pressupunham o uso, não de um texto específico, mas de todo o conhecimento adquirido até ali. Por último, tendo os meus professores, em geral, a ideia de que ler e escrever são dois lados de uma mesma moeda, havia a prática ocasional da escrita, em avaliações de redação nas quais se deveria usar todo o conhecimento de mundo que se tinha. Fora da escola, eu lia aquilo que os meus critérios incipientes de jovem leitor apontavam como de boa qualidade e que estavam disponíveis por um bom preço.

No ensino superior, ocorreu um intenso refinamento generalizado. Fui exposto a uma série de métodos de leitura, que me mostraram que é possível realizar de várias maneiras as etapas do processo de ler. O método específico do curso de Filosofia, o estruturalista, foi o que mais me chamou a atenção. Havia nele especificidade e uma intensa apologia ao rigor e à precisão que não vi nos outros. Ele também apresenta a pretensão de suprimir a influência da ideologia do leitor, de maneira que este recebesse as ideologias do texto sem julgá-las positiva ou negativamente no momento do recebimento. Isso se dá de duas formas. Primeiro, incentiva-se o leitor a adotar uma postura neutra diante do texto. Eis o que afirmam Folscheid e Wunenburger:

Para ler realmente um texto, devemos nos colocar ingenuamente diante dele, sem preconceitos de nenhuma espécie, sem expectativas, sem saberes prévios – ou lembranças de saber.

Disso resulta que é necessário afastar o que se sabe para se contentar com o que se lê. Caso contrário, você não enxerga. Sobretudo, não enxerga aquelas evidências maciças que, como bem diz a expressão consagrada, “saltam aos olhos”[2].

Depois, entra em ação o método estruturalista propriamente dito, desenvolvido na França do século XX por Victor Goldschmidt e Martial Guérrout, e que me foi apresentado como aquele que permite uma real objetividade na leitura dos sistemas filosóficos, a salvo das distorções que frequentemente vêm com a interpretação pura e simples. Sobre isso, diz Porchat:

Objetividade que consiste na reconstituição explícita do movimento de pensamento do autor, refazendo seus mesmos caminhos de argumentação e descoberta, segundo seus diversos níveis, respeitando todas as suas articulações estruturais, reescrevendo, por assim dizer, segundo a ordem das razões, a sua obra, sem nada ajuntar, entretanto, que o filósofo não pudesse e devesse assumir explicitamente como seu. E sem esquecer um só instante que “as asserções de um sistema não podem ter causas, ao mesmo tempo próximas e adequadas, senão razões. E razões conhecidas do filósofo e alegadas por ele”[3].

O estruturalismo filosófico também exige que se façam protocolos de leitura, que consistem em anotar, sobre cada parágrafo lido, qual o seu tema, a tese, e os passos argumentativos usados para justificá-la. Isso evita anacronismos e outras distorções. Depois, faz-se um esquema sobre o todo do texto.

De um lado, pôr em prática todas essas exigências é minha principal dificuldade no ensino superior. Muitas vezes, nenhum conceito prende imediatamente o olhar; nenhuma tese parece se destacar. É difícil pôr o dedo na tese e separá-la dos movimentos argumentativos que lhe dão sentido, o que faz a produção e organização de artigos sobre os autores lidos uma tarefa árdua. Conforme os semestres passam, ler se torna uma tarefa cada vez mais vagarosa.

Também é difícil concretizar o outro lado da moeda, a escrita. Há sempre grande medo em deixar um dos passos argumentativos dos autores de fora, sob pena de a ideia exposta não ficar clara e do texto final parecer uma colcha de retalhos. No entanto, um cuidado excessivo com a exposição do autor pode tornar o texto prolixo e carente de objetividade.

De outro lado, as especificidades da leitura filosófica muitas vezes me dão facilidade em identificar conceitos nos discursos alheios, nos diálogos de pessoas e personagens, nos textos e mesmo em pesquisas científicas, me permitindo absorvê-las em minha vida ou rejeitá-las. Isso porque as mensagens presentes nos textos filosóficos são totalmente redutíveis a um pensamento racionalmente conduzido, que se move apenas no domínio conceitual. Assim, nas pesquisas científicas, um dos conhecimentos mais valorizados hoje, é possível separar o que são fatos das interpretações sobre eles.

Por lidar com obras de todos os séculos, tenho de encarar estilos de escrita muito diferentes do exigido hoje. Isso causa um grande estranhamento. Há textos extremamente herméticos, como a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, que mesmo estando em português, exigem quase o mesmo trabalho que ler um texto em outra língua. Os livros e artigos sobre fenomenologia são os que mais me causam deslumbramento e dificuldade.

As leituras com que mais me identifiquei foram os textos nos quais permeava um tom analítico, em especial os de ceticismo ou aqueles com um quê cético, como O discurso do método de Descartes. Eles propõem a análise e remoção da maior parte das crenças de um indivíduo, o que é ótimo para limpar muitos preconceitos, crenças absorvidas sem pensar, injunções, amores a ideias por mera tradição e a manutenção apenas de poucas ideias necessárias à vida, e mesmo estas não sendo fixas e podendo sempre mudar. A postura investigativa do ceticismo também previne à adesão a ideias que pareçam mais convincentes de início, fazendo com que o aprendiz de cético deixe seu juízo suspenso por quanto tempo for necessário até que decida se aquela noção vale alguma coisa ou não.

Outro exemplo é Problemas de Gênero, de Judith Butler, que me mostrou que os papéis supostamente fixos de homem e mulher são, na verdade, construídos culturalmente, e que a dose de escolha do indivíduo sobre até que ponto segui-los é muito maior do que o que se supõe. Mais um estudo que fez bastante diferença na minha formação foi o estudo de filosofia da linguagem, que mostrou a dose de preconceitos e ideias que entram no indivíduo simplesmente por aprender linguagem, e como a língua é racista, machista, homofóbica e tem intrínsecas várias outras ideias de má qualidade. A descoberta desses estudos melhora minha relação com as pessoas.

Com efeito, é pelos motivos citados anteriormente, a saber, o contato com os melhores pensamentos das pessoas mais qualificadas da história, a alta absorção conceitual que o método estruturalista proporciona, e o teor analítico sobre o mundo, as sociedades e os indivíduos em geral, é que considero a leitura importante no meu ensino superior, porque quem sai de um curso de humanas tem grandes chances de ser um formador de opinião e é preciso entender muito bem como elas funcionam para não ajudar a formar opiniões dogmáticas, mal pensadas, preconceituosas.

Minhas leituras habituais são os livros da faculdade, livros de literatura e colunas de jornal que considero interessantes, como a de Eliane Brum. Além de alguns blogues de pessoas cujas ideias aprecio. Já a minha família lê pouco ou nada. Meu pai não lê; minha mãe e irmãos leram na escola e o livro de bobagens Ágape, do Padre Marcelo Rossi, lançado em 2010.

BIBLIOGRAFIA

DESCARTES, René, Discurso do método,  tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Jr, in  Descartes I, São Paulo, Nova Cultural, coleção Os Pensadores, 4ª edição, 1987.

FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica, tradução de Paulo Neves, São Paulo, Martins Fontes, 3.ª Edição, 2006.

GOLDSCHMIDT, Victor. A religião de Platão, prefácio introdutório de O. Porchat, tradução de IEDA e O. Porchat, São Paulo, Divisão Europeia do Livro, 2.ª Edição, 1970.


[1] DESCARTES, René, Discurso do método,  tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Jr, in  Descartes I, São Paulo,

Nova Cultural, coleção Os Pensadores, 4ª edição, 1987.

[2] FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica, tradução de Paulo Neves, São Paulo, Martins Fontes, 3.ª Edição, 2006.

[3] GOLDSCHMIDT, Victor. A religião de Platão, prefácio introdutório de O. Porchat, tradução de IEDA e O. Porchat, São Paulo, Divisão Europeia do Livro, 2.ª Edição, 1970.

Memorial de Anderson

Anderson Luis de Souza Silva

Meu objeto é mostrar, neste memorial, o quanto a leitura foi, é e será, até o fim de meus dias, parte fundamental de minha vida. Poeticamente falando, a leitura, para mim, é libertação, ou melhor, é libertar-se da vida, que é uma prisão da qual só quem lê consegue fugir. Fugir não: sair honestamente, cabeça erguida, pela porta da frente, sem dever nada a ninguém. Em um sentido objetivo, a leitura, creio, é a capacidade que o ser humano tem de decodificar o mundo. Aqui não se trata, é claro, apenas de decodificar um amontoado de palavras postas em um pedaço de papel, mas sim de decodificar tudo que está a nosso redor, tudo o que vemos e o que não vemos. A leitura é interior e exterior: lemos tudo que nos cerca e tudo que se passa dentro de nós.

 
Em minha família nunca houve, infelizmente, o hábito da leitura. Cresci em uma casa onde pouco ou quase nada se lia. Era, em meu lar, a televisão a grande “estrela”. Todas as noites reuniam-se os meus a fim de assistir a ela. E os livros, esses serviriam apenas de enfeite à estante, se não fosse o fato de eu cuidar deles, desde minha infância até hoje. Tento, de alguma forma, incutir em meus familiares o amor da leitura. No entanto, forçoso é confessar ser isso um trabalho cujo resultado é de todo nulo.

 
Agora, infelizmente ou felizmente, não posso medir qual foi a importância da leitura em minha vida escolar porque, devido a vários problemas de saúde, não tive vida escolar. Frequentei o ensino fundamental por cerca de cinco anos, dos quais não me lembro de quase nada. Minto! Não me lembro de nada. Assim sendo, pulando “amarelinha”, pulemos essa triste parte de minha infância… Ensino médio não frequentei. (Valha-me Deus! Este memorial já começa a ganhar feição de tragédia! Todavia, não deixes de lê-lo, por favor; enxuga as lágrimas, pessoa comovida: neste texto, ainda lerás histórias felizes, prometo-te.) Isso, o fato de eu não ter frequentado ensino médio, implica dizer que, antes de chegar à universidade, eu nunca havia tido uma única aula de Literatura e que toda a minha formação como leitor foi feita por mim mesmo. Mas não sejas leviano, frascário: não vás deduzir daí que não estudei. Muito pelo contrário, li boa parte dos clássicos da língua portuguesa, sobretudo os livros de Machado de Assis. Este escritor, aliás, foi o melhor professor de Literatura e de Língua Portuguesa que tive. Todavia, não foi Machado quem me transmitiu o amor da leitura: foi a Moça do Recife, Clarice Lispector. Tudo começou quando, por conta própria, uma vez que já disse não haver tido vida escolar, eu estudava um livro de gramática e, nele, deparou-se-me um conto de Clarice intitulado Felicidade Clandestina: foi amor à primeira vista. Desde esse dia, passei a amar as literaturas brasileira e portuguesa, mesmo sem nunca haver tido uma única aula de Literatura, donde concluo (e aqui peço perdão aos professores) que a melhor forma de se apaixonar pela leitura é não tendo aula de Literatura.

 
Sem dúvida, foi com a leitura das obras de Machado de Assis que mais me identifiquei. Se Clarice Lispector foi minha “Marcela”, o primeiro amor de Brás Cubas, os livros do Bruxo do Cosme Velho foram minha “Virgília”, o amor de Brás Cubas em sua maturidade. E por que me identifiquei tanto com Machado de Assis? Decerto, algumas das razões principais foram: o fato de, qual ele, eu ter estudado por conta própria; qual ele, nunca eu ter permitido que, apesar dos golpes da Fortuna, me tratassem por coitadinho; qual ele, eu ter invertido situações que me eram completamente desfavoráveis.

 
Quando comecei a me tornar um machadiano compulsivo (esta é a melhor definição) tive dificuldades em assimilar a ironia contida nos textos de Machado de Assis. Sim, porque sua ironia é, as mais das vezes, sutil, de modo que exige do leitor um alto grau de sensibilidade para percebê-la. Também a linguagem utilizada por ele era-me, a princípio, sobremodo difícil de assimilar. Eu dizia: “Meu Deus, o que este homem está dizendo?” Mas, após muita insistência, percebi que aquela linguagem não era tão complicada: era, na verdade, simples para quem conhece as estruturas de nosso idioma. E, para dizer tudo, era a língua literária brasileira atingindo seu ápice na pena de um rapaz que se fez por si, que entrou onde não queriam que ele entrasse: na história deste país.

 
Do modo que este texto se vai apresentando, provavelmente suporá o leitor que minhas leituras se resumem aos livros de Machado de Assis. E suporá mal, pois minhas leituras começam nas cantigas trovadorescas, sobretudo as de Dom Dinis, e terminam nos autores contemporâneos, entre os quais destaco José Saramago, cujos livros (principalmente o Ensaio Sobre a Cegueira) contribuíram sobremodo para minha formação como leitor. A propósito, foram as obras de Saramago que me causaram os maiores estranhamentos, pois, ao começar a lê-las, deparou-se-me um estilo de escrita com o qual não estava acostumado. Vi que o escritor português quase nunca empregava o ponto, os dois-pontos, o ponto e vírgula, o travessão para indicar o diálogo entre as personagens, enfim, vi que ele adotava uma forma de escrever que fugia completamente ao convencional. Foi-me, por isso, num primeiro momento, sofrível ler, por exemplo, o Ensaio Sobre a Cegueira; neste livro, quase Saramago me tira todo o fôlego com seus períodos intermináveis. A princípio, não entendia qual era a intenção do autor. Mas depois percebi (e isto levou-me a ter uma das mais gloriosas experiências que já tive numa leitura) que José Saramago queria que o leitor não lesse o livro, mas sofresse o livro. E a forma que ele encontrou para fazer isto foi adotar uma maneira de escrever que obrigasse o leitor a ficar com o rosto colado no livro, prestando o máximo de atenção àquilo que lia, sob pena de não conseguir entender nada.

 
Também me dediquei a ler Camões. Sou apaixonado pel’Os Lusíadas. Li este livro como uma criança em uma loja de doces ou de brinquedos. Pessoa, cujos poemas jamais me saem da cabeça, foi meu companheiro durante uma das piores fases de minha vida. Quando eu me perguntava se valia a pena insistir, se valia a pena lutar, logo me vinham à mente as palavras do poeta: “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”. Isso também me diz Pessoa sempre que penso em desistir das Letras. O curioso é que o próprio Fernando Pessoa abandonou o curso de Letras, mas é porque ele deve ter meditado que valia pela abandoná-lo. Mário de Sá-Carneiro, que deu “azar” de ter sido contemporâneo de Pessoa, é outro poeta português que me encanta. Seu poema Quase parece um relato de minha vida, pois sempre me parece falar um golpe de asa para terminar o que comecei.

 
Agora, saiamos de Portugal, leitor; entremos numa caravela e vamos para o Brasil, para que eu te conte, neste memorial, quem, além dos escritores brasileiros já citados, são meus amigos… Ei-los: a Sr.ª Cecília Meireles, que me ensinou que, neste mundo, não é preciso ser feliz nem triste: basta ser poeta; o Sr. Mário Quintana com sua poesia doce; o Sr. Carlos Drummond, cuja pedra ainda está no meio de meu caminho, o Sr. Manuel Bandeira, com quem viajei para Paságarda; o Sr. Castro Alves, que me fez chorar dentro do navio negreiro; o Sr. Aluísio Azevedo, cujos livros atirei à parede, de raiva por causa da hipocrisia dos seres humanos; o Sr. Olavo Bilac: quando tempestades destruíram meus campos, só me restou a última flor do Lácio; o Sr. José Lins do Rego, cujo fogo morto acendeu ainda mais meu amor da leitura; o Sr. João Cabral de Melo Neto, que me alcunhou Severino; o Sr. Érico Veríssimo, que me ensinou a olhar os lírios do campo; o Sr. Graciliano Ramos, que tentou tornar a minha vida ainda mais seca. Enfim, são tantos amigos… Muitos outros há, mas, se for citá-los todos aqui, dar-lhe-ei um livro.

 
“É preciso ler tudo tudo, absolutamente tudo!”, bradava, na década de 1920, em tom de desespero, o poeta Carlos Drummond de Andrade. O poeta sabia a importância de leitura na formação de sociedade brasileira. Sabia que a falta dela causaria um desastre ao país. O poeta talvez não fosse profeta, mas antevia o futuro do Brasil sem leitura. “É preciso ler tudo, absolutamente tudo!”, essas palavras jamais me saem da cabeça. Por isso, não obstante eu sempre ter preferido a literatura lusófona, procuro ler tudo que me chega às mãos: desde livros de autoajuda até literatura estrangeira. Não que eu goste de qualquer gênero de texto, mas a necessidade e as palavras do poeta me obrigam a ler tudo. Todavia, é-me forçoso confessar (e, no parágrafo acima, isso ficou bem claro) que o gênero literário de que mais gosto é o romance, seguido de perto pela poesia. Metade de mim é prosa, metade é verso. E, para ser mais preciso, minha paixão são os romances realistas de Machado de Assis, sem me esquecer de citar os de outro grande escritor realista, Aluísio Azevedo, cujos livros também me encantam.

 
Leio muito gramáticas normativas. Não digo que elas me ensinaram a escrever; digo apenas que me ensinaram a identificar e classificar as partes de um texto, de modo que eu soubesse pontuar corretamente meus escritos; ensinaram-me também a ortografia. Não há porque eu negar que sou apaixonado pela gramática normativa. Tenho várias e as estudo diariamente. Confesso que, antes de chegar ao curso de Letras –– aliás, antes de ter contato com linguistas como Mario Perini, Ataliba de Castilho, o que fiz bem antes de entrar na universidade ––, eu tinha uma visão bem restrita da língua portuguesa: achava que a língua se resumia àquilo que prescrevem as gramáticas normativas. Os linguistas a que me referi, porém, ampliaram-me os horizontes no tocante à nossa língua, razão por que os incluo neste memorial entre as leituras que marcaram minha vida. Eles preparam o caminho para eu chegar às Letras. Aí, apesar de até o momento só haver tido um semestre de aulas, pude ampliar sobremodo meu leque de leitura, ter contato com textos cujos gêneros são totalmente diferentes daqueles como os quais me acostumara. E, a princípio, isso me foi difícil de assimilar: não é nada fácil para quem só tivera contato com textos literários de repente se ver diante de textos acadêmicos, cheios de regras, cheios de normas, cheios de “não me toques”. E por que hei de negar que ainda não consigo digerir tais tipos de texto? Sim, para mim ainda são difíceis de ler e, obviamente, de entender.

 
Não posso terminar este memorial sem citar um livro que me acompanha desde quando eu era um menino: a Bíblia. Como fui criado em uma família cristã protestante, sempre esse livro esteve presente em minha vida. Comecei a lê-lo ainda criança, nas escolas dominicais de eu participava na Igreja Metodista. Foi aí que me transmitiram o amor pela Escritura. Amor que tenho até hoje: leio a Bíblia todos os dias, não obstante já tê-la lido, capa a capa, três vezes. É um livro que, definitivamente, é parte de mim. Por isso, faço questão de mencioná-lo aqui não como uma leitura que marcou a minha vida, mas sim como a leitura que marcou minha vida.

 
Por fim, ressalto que foi importante, para mim, escrever este memorial, pois pude trazer à memória parte de minha vida de leitor, E, com essa retomada, poderei organizar melhor minha vida acadêmica, poderei analisar os erros e acertos que cometi em minhas leituras, de modo que eu possa fazer uma reflexão mais acurada sempre que tiver de ler um texto acadêmico ou de qualquer outro gênero.