As aventuras do Homem-Falácia

 

Hoje, a tradução de um dos quadrinhos de que mais gostei. O original pode ser visto aqui: http://existentialcomics.com/comic/9

quadrinhofalacia

Anúncios

Erro de português?

Por Anderson Luís de Souza

Imagine um coletivo de cães, uma matilha. Numa matilha, não importa a raça dos cães, a cor, o tamanho; todos são cães e não há cães melhores nem piores: apenas cães; beleza ou feiura, além de ser algo que vem de fora (gosto de quem observa os cães, por exemplo), em nada influência na matilha: todos os seres que dela fazem parte são cães; não há piores nem melhores, certos ou errados: apenas cães. Nenhum biólogo que analise a matilha excluirá algum de seus integrantes da categoria de cão, a não ser que encontre dados científicos que o permitam fazê-lo. Não importa que haja cão cego, sem uma perna, surdo: todos são igualmente cães.

Pois bem. Com a língua portuguesa, ocorre algo semelhante; ela é coletivo de várias formas de língua: culta, coloquial, gíria, etc., etc., etc. Todas essas formas de língua formam o que conhecemos por língua portuguesa. A chamada língua culta é tão língua portuguesa como a dita língua popular. Ocorre que, em sociedades como a nossa, há uma forma de língua que goza de maior prestígio social (note que isto é algo que vem do exterior, e não da própria língua: a sociedade é que atribui valor a cada forma de língua; é exatamente como no caso da matilha em que se acha um cão mais belo que o outro, melhor ou pior que o outro). Assim como se levarmos a matilha ao biólogo para que este a analise, ela nos dirá que todos são cães porque todos atendem aos requisitos que os permitem ser classificados como cães, se levarmos para a sintaxe (que é uma ciência) uma construção como “nóis come os bolo”, constataremos que ela é tão português como “nós comemos o bolo”, pois se enquadra no sistema sintático da língua portuguesa:

“nós comemos o bolo”

nós (sujeito), comemos (verbo), o bolo (objeto direto)

“nóis come os bolo”

nóis (sujeito), come (verbo), os bolo (objeto direto).

A sintaxe – assim como a biologia no caso da matilha mostra que todos são cães – mostra que as duas construção são português, o que nos impede de dizer – cientificamente – que “nós come os bolo” seja um erro de português. Trata-se, na verdade, de uma variedade sintática da mesma oração. A diferença é social (exterior ao sistema linguístico): a “nós comemos os bolos” se dá maior prestígio porque é a variedade que as pessoas ditas cultas usam, ao passo que “nóis come os bolo” é desprestigiada porque é falada por gente dita inculta. Mas, linguisticamente, isto é, cientificamente, as duas construções são equivalentes, não havendo, pois, erro de português na segunda.

Um erro de português é uma construção que se desvia do sistema linguístico da língua portuguesa:

“Bolos os nós comemos.”

Note-se que, aqui, as palavras estão todas de acordo com a dita norma culta, mas a construção é agramatical, uma vez que, só para começar, a língua portuguesa não nos permite pôr o artigo após o substantivo a que se refere: “os bolos”, e nunca “bolos os”: “bolos os” é, portanto, cientificamente, erro de português. Isso também vale para as palavras: nossa língua também não permite que uma palavra termine em “t” nem sílaba sem vogal, por exemplo. Quando se põe um artigo masculino diante de uma palavra feminina ou vice-versa, comete-se um erro de português: “o mulher morreu”, “a homem morreu”, visto que o sistema do português recusa que se anteponha o artigo masculino a palavra feminina e vice-versa.

Uma espiada dentro da cabeça de meu filho

O autor de Cloud Atlas fala sobre por que traduziu um livro de um autor japonês de 13 anos com autismo.

Por David Mitchell

Traduzido por Israel Vilas Bôas

O texto que se segue é a introdução de David Mitchell ao livro The Reason I Jump (“A razão por que pulo”, em português, sem data de lançamento no Brasil), por Naoki Higashida, disponível agora pela editora Random House.

O autor, que tem 13 anos de idade, de A razão por que pulo, convida você, leitor, a imaginar uma vida diária em que sua capacidade de fala é removida. Explicar que você está com fome, ou cansado, ou com dor, bem como conversar com um amigo, está, agora, além de seus poderes. Eu gostaria de levar esse experimento mental mais adiante. Agora, imagine que, depois de perder a sua habilidade de se comunicar, o editor-da-casa, que ordenava seus pensamentos, vai embora sem aviso. É provável que você nem soubesse que esse editor-mental existia, mas, agora que ele ou ela foi embora, você se dá conta, tarde demais, de que era ele ou ela quem permitira que sua mente funcionasse por todos esses anos. Uma explosão de ideias, memórias, impulsos e pensamentos desaba sobre você, incessantemente. Seu editor controlava todo esse fluxo, afastando a maior parte dele para longe, recomendando apenas um pequeno número para sua consideração consciente. Mas, agora, você está por conta própria.

Agora, sua mente é uma sala onde 20 rádios, todos sintonizados em diferentes estações, estão clangorando vozes e músicas. Os rádios não têm botões de desligar ou controle de volume, a sala na qual você está não tem porta nem janela, e o alívio só virá quando você estiver muito exausto para ficar acordado. Para piorar a situação, um outro editor, até então não reconhecido, acaba de sair, sem aviso prévio, seu editor dos sentidos. De repente, estímulos sensoriais do ambiente estão-lhe inundando, também, não filtrados em qualidade e esmagadores em quantidade. Cores e padrões de formas nadam e clamam por sua atenção. O amaciante de roupas em seu suéter cheira tão forte quanto purificador de ar disparado diretamente em suas narinas. Seus jeans confortáveis ​​são agora tão ásperos quanto palha de aço. Seus sentidos vestibular e proprioceptivo também estão em desequilíbrio, por isso o chão fica inclinando como o de uma barca em um mar agitado, e você não tem mais certeza de onde suas mãos e pés estão em relação ao resto de você. Você pode sentir as placas do crânio, além dos músculos faciais e mandíbula, a cabeça presa dentro de um capacete de motocicleta três vezes menor que a cabeça, o que pode, ou não, explicar por que o ar condicionado é tão ensurdecedor quanto uma furadeira elétrica, mas seu pai – que está bem aqui na sua frente – soa como se ele estivesse falando com você a partir de um telefone celular, em um trem passando por lotes de túneis curtos, fluente em cantonês. Você não é mais capaz de compreender a sua língua materna, ou qualquer língua: A partir de agora, todos os idiomas lhe serão línguas estrangeiras. Até o seu senso de tempo sumiu, tornando-o incapaz de distinguir entre um minuto e uma hora, como se você tivesse sido enterrado em um poema de Emily Dickinson sobre a eternidade, ou trancado em um filme sci-fi sobre manipulação do tempo. Poemas e filmes, no entanto, chegam a um fim, ao passo que esta é a sua nova realidade em curso. O autismo é uma condição vitalícia. Mas mesmo a palavra autismo não faz mais sentido para você agora que a palavra 自闭症 ou αυτισμός ou .

Obrigado por ficar até o fim, embora o verdadeiro fim, para a maioria de nós, fosse envolver sedação e ser hospitalizado à força, e o que acontece depois é melhor não especular. No entanto, para as pessoas nascidas dentro do espectro do autismo, esta realidade não editada, não filtrada, e assustadora como o inferno é o lar. As funções que a genética outorga ao resto de nós – os editores – como um direito de nascença, as pessoas com autismo precisam passar suas vidas tentando simular. É uma tarefa intelectual e emocional de proporções Hercúleas, Sisíficas e Titânicas, e se as pessoas autistas não são heróis, então não sei o que heroísmo é, deixando pra lá que os heróis não têm escolha. A própria senciência não deve ser vista como dada, e sim como um autoconstructo feito tijolo a tijolo requerendo constante manutenção. Como se isso não fosse um pedido bastante alto, as pessoas com autismo devem sobreviver em um mundo exterior, no qual “necessidades especiais” é gíria para “retardado”, onde colapsos nervosos e ataques de pânico são vistos como birra, em que requerentes de auxílio deficiência são tomados por sanguessugas da previdência social, e onde a política externa britânica pode ser descrita como “autista” por um ministro francês. (O Sr. Lellouche desculpou-se mais tarde, explicando que ele jamais sonhou que o adjetivo pudesse causar ofensa. Eu não duvido disso.).

O autismo não é nenhuma moleza para os pais nem para os cuidadores da criança, e criar um filho ou filha autista não é um trabalho para os pusilânimes – de fato, pusilanimidade está condenada pela primeira pequena dúvida de que há Algo Não Tão Certo com a sua criança de 16 meses. No Dia do Diagnóstico, um psicólogo infantil lhe entrega o veredicto com um truísmo desgastado sobre seu filho ser o mesmo carinha que ele era antes desta notícia redefine-vida ser confirmada. Então você atravessa o corredor polonês das reações das outras pessoas: “É tão triste”; “O quê, então ele será como o Dustin Hoffman em Rain Main?”; “Eu espero que você não aceite este assim chamado ‘diagnóstico’ sem protestar!”; e a minha favorita, “Sim, bem, eu disse ao meu pediatra onde enfiar a Tríplice Viral dele”. Seus primeiros contatos com a maioria das agências de apoio irão colocar os últimos pregos no caixão da pusilanimidade, e enxertar-lhe uma camada de tecido cicatricial e cinismo tão grosso quanto um rinoceronte escondido. Há pessoas talentosas e com recursos trabalhando no suporte do autismo, mas com uma regularidade depressiva as políticas do governo parecem ser sobre Band-Aids e paliativos, e não sobre compreender o potencial de crianças com necessidades especiais a ajudá-las a se tornar, no longo prazo, uma rede de contribuintes à sociedade. O pequeno consolo é que a teoria médica não mais culpa a sua esposa de causar autismo por ser uma “mãe geladeira” como fazia há não tanto tempo (Pais geladeira estavam indisponíveis para comentário) e que não se vive em uma sociedade na qual as pessoas com autismo são consideradas bruxas ou demônios e tratadas em conformidade com essa crença.

Ao que recorrer em seguida? Livros. (Você já terá começado, pois a primeira reação de amigos e família desesperados para ajudar é enviar recortes de jornais, links da Web, e literatura, por mais tangenciais à sua situação que sejam.) O mercado editorial de necessidades especiais é uma selva. Muitos manuais de Como Ajudar Sua Criança Autista têm uma espiral doutrinária, com generosos auxílios de © e ™. Eles podem conter ideias usáveis, mas lê-los pode parecer depressivamente como ser chamado a se filiar a um partido político ou a uma igreja. Os textos mais acadêmicos são mais densos, com mais referências cruzadas, e ricos em pedagogia e abreviações. É claro que é bom que os acadêmicos estejam pesquisando este campo, mas frequentemente o abismo entre a teoria e o que está se desenrolando no chão de sua cozinha é muito amplo para atravessar.

Outra categoria é o livro de memórias mais confessional, geralmente escrito por um dos pais, descrevendo o impacto do autismo na família e, por vezes, o efeito positivo de um tratamento pouco ortodoxo. Estes livros de memórias são media-friendly e aumentam o perfil do autismo no mercado de causas dignas, mas eu achei seu uso prático limitado, e em justeza eles não são escritos para serem úteis. Toda pessoa autista exibe o seu ou sua própria variação da condição – autismo é mais parecido com padrões de retina que com sarampo – e quanto mais pouco ortodoxo o tratamento para uma criança, menos provável que vá ajudar a outra (a minha, por exemplo).

Uma quarta categoria de livro sobre autismo é a “autobiografia do autismo”, escrita por membros do espectro do autismo, o mais famoso exemplo sendo Thinking in Pictures por Temple Grandin. Com certeza, estes livros são iluminadores, mas quase por definição eles tendem a ser escritos por adultos que já resolveram as coisas, e eles não puderam me ajudar onde eu mais precisava: entender por que meu filho de 3 anos estava propositalmente batendo a cabeça no chão; ou agitando os dedos em frente aos olhos em alta velocidade; ou sofrendo de uma pele tão sensível que não podia sentar-se ou deitar-se; ou uivando em luto por 45 minutos quando o DVD de Pingu estava muito arranhado para o tocador de DVD lê-lo. Minha leitura provia teorias, ângulos, anedotas, palpites acerca destes desafios, mas, sem razões, tudo o que eu podia fazer era continuar procurando, desamparadamente.

Um dia minha esposa recebeu um livro extraordinário que ela havia encomendado do Japão, chamado A razão por que pulo. Seu autor, Naoki Higashida, nasceu em 1992 e ainda estava na sétima série ensino fundamental quando o livro foi publicado. O autismo de Naoki é severo o suficiente para tornar a comunicação oral praticamente impossível, mesmo agora. Mas graças a um professor ambicioso e à sua própria persistência, ele aprendeu a soletrar palavras direto em uma grade alfabética. Uma grade alfabética Japonesa é uma tabela das 40 básicas letras higarana, e sua vertente portuguesa é uma cópia do teclado qwerty, desenhada em uma carta e laminada. Naoki se comunica apontando as letras nestas tabelas para soletrar palavras inteiras, as quais um ajudante ao seu lado então transcreve. Estas palavras se tornam sentenças, parágrafos e livros inteiros. “Extras” em volta da grade incluem números, pontuação e as palavras terminado, sim e não. (Embora Naoki possa também escrever e blogar diretamente em um computador via o seu teclado, ele considera a versão pouco tecnológica da grade alfabética um “corrimão mais estável”, pois ela oferece menos distrações e o ajuda a se enfocar.) Até no começo do ensino fundamental, este método possibilitou que ele se comunicasse com outros, e compusesse poemas e livros de histórias, mas foram as suas explicações sobre por que crianças com autismo fazerem o que fazem que foram, literalmente, as respostas pelas quais estávamos esperando. Composto por um escritor ainda com um pé na infância e cujo autismo ainda era pelo menos tão desafiador e altera-vida quando o de nosso filho, A razão por que pulo foi uma revelação enviada por deus. Lê-lo me fez sentir como se, pela primeira vez, nosso próprio filho estivesse conversando conosco sobre o que estava acontecendo dentro de sua cabeça, por meio das palavras de Naoki.

O livro vai muito além de prover informação, no entanto: ele oferece prova de que trancado dentro de um corpo aparentemente desamparado de um autista está uma mente tão curiosa, sutil e complexa, como a sua, a nossa, a de todos. Durante a jornada 24/7 de ser um cuidador, é muito fácil esquecer que a pessoa pela qual você está fazendo tanto é, e é obrigada a ser, mais adaptável que você sob muitos pontos de vista. Assim como meses se tornam anos, “esquecer” pode se tornar “desacreditar”, e esta falta de fé torna tanto o cuidador quanto o cuidado vulneráveis a negatividades. O presente de Naoki Higashida é restaurar a fé: ao demonstrar acuidade intelectual e curiosidade espiritual; pela análise de seu ambiente e sua condição; e por um humor travesso e um impulso de escrever ficção. Não estamos falando de sinais ou dicas dessas propensões mentais: elas já estão aqui no livro.

Se isso não fosse suficiente, A razão por que pulo sem perceber descredita o mais apocalítico item da sabedoria recebida sobre autismo – que pessoas com autismo são solitários antissociais que carecem de empatia pelos outros. Naoki Higashida reitera repetidamente que não, que ele valoriza muito a companhia de outras pessoas. Mas porque a comunicação é tão repleta de problemas, uma pessoa com autismo tende a acabar sozinha em um canto, no qual pessoas então veem a ele ou a ela e pensam: “Ah! clássico sinal de autismo, aquilo”. Similarmente, se pessoas com autismo são cegas para com os sentimentos de outras pessoas, como poderia Naoki testemunhar que o aspecto mais insuportável do autismo é o conhecimento de que ele torna outras pessoas estressadas e depressivas? Como poderia ele escrever uma história (intitulada “Eu estou bem aqui”, incluída no fim do livro) ostentando personagens que mostram uma gama de emoções e um roteiro criado para torcer as glândulas de lágrimas? Como todos os mamíferos contadores de histórias, Naoki está antecipando as emoções de sua audiência e manipulando-as. Isso é empatia. A conclusão é que tanto pobreza emocional quanto aversão à companhia não são sintomas do autismo, mas consequências dele, de seu duro bloqueio da autoexpressão e da ignorância quase intocada da sociedade sobre o que está acontecendo dentro das mentes autistas.

Para mim, tudo isso acima é conhecimento transformador e melhorador-de-vida. Quando você sabe que seu filho quer falar com você, quando sabe que ele está absorvendo os seus arredores tão atentamente quanto a sua filha não autista, qualquer que seja a evidência em contrário, então você pode ser dez vezes mais paciente, disposto, compreensivo e comunicativo; e dez vezes mais capaz de ajudar no desenvolvimento dele. Não é nenhum exagero dizer que A razão por que pulo nos proporcionou uma reviravolta em nossa relação com nosso filho. A escrita de Naoki Higashida administrou o impulso que eu precisava para parar de sentir pena de mim mesmo e começar a pensar quão mais dura é a vida para o meu filho, e o que eu poderia fazer para torná-la menos dura. Espirais virtuosas são tão maravilhosas na criação dos filhos com necessidades especiais, como em qualquer outra coisa: as suas expectativas para o seu filho são levantadas; sua resistência para passar os locais rochosos é reforçada, e seu filho sente isso, e responde. Minha mulher começou a trabalhar na tradução informal do livro de Naoki para o inglês para que os outros cuidadores e tutores de meu filho pudessem lê-lo, bem como para alguns amigos que também têm filhos e filhas com autismo no nosso canto da Irlanda. Mas depois de descobrir por meio de grupos na Web que outras japonesas expatriadas, mães de crianças com autismo estavam frustradas pela falta de uma tradução para o inglês, nós começamos a refletir se não haveria uma audiência muito maior para Naoki Higashida. Esta tradução inglesa de A razão por que pulo é o resultado.

O autor não é guru, e se as respostas a algumas questões podem parecer meio esparsas: lembrem-se de que ele tinha apenas 13 anos quando as escreveu. Mesmo quando ele não pode prover uma resposta curta e direta – tal como à pergunta “Por que você alinha seus brinquedos tão obsessivamente?” – o que ele tem a dizer ainda vale a pena. Naoki Higashida continuou a escrever, mantém um blog quase diário, se tornou bem conhecido em círculos de defesa do autismo e tem figurado regularmente em na revista japonesa Big Issue. Ele diz que aspira a ser um escritor, mas é óbvio para mim que ele é já é um – um honesto, modesto e atencioso escritor, que venceu enormes chances contrárias e transportou informação inédita da mente severamente autista para o mundo; um processo tão árduo para ele quanto, digamos, o ato de carregar água nas mãos em concha através de uma movimentada Times Square ou Piccadilly Circus seria para você ou para mim. Os três caracteres usados na palavra autismo em japonês significam auto, confinado e doença. Minha imaginação converte esses caracteres em um prisioneiro trancado e esquecido em uma cela de confinamento solitário esperando alguém, qualquer um, perceber que ele ou ela está ali dentro. A razão por que pulo derruba um tijolo da parede.

A ética e a moral

Voltemos a um assunto que abordei no capítulo 9 e que demanda melhor fixação, já que pessoas das mais diferentes orientações culturais e religiosas provavelmente lerão este livro. Fiz mestrado em filosofia política e ética. A primeira e talvez mais importante coisa que aprendi foi o filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) quem me ensinou: moral e ética não são a mesma coisa.

A moral se refere a um conjunto de valores e interditos estabelecidos por determinadas culturas em épocas específicas, e eles variam muito. A moral dita os costumes e o que é certo ou errado, legalmente falando. Por exemplo: relações homossexuais não são morais no Egito, constituindo crime. No Brasil, não são ilegais, mas são consideradas imorais por diversas correntes religiosas. Na Holanda, não costumam receber julgamento moral. Outro exemplo: mulheres sem véu no Afeganistão são tidas como imorais. No Brasil, não. Um homem pode se casar com quatro mulheres no Oriente Médio, sendo isso considerado um ato de generosidade. No Brasil, seria crime.

A ética está além da moral, envolve mais pensar do que simplesmente obedecer. As duas coisas podem coincidir ou até mesmo entrar em antagonismo. É ético e moral em nosso país, por exemplo, não roubar. Há, contudo, coisas que são antiéticas, mas não são imorais (ou ilegais). E há atos profundamente éticos, mas que são considerados ilegais. Você mesmo pode fazer um exercício mental e descobrir várias coisas “legalmente corretas”, mas eticamente erradas. Descobrirá que há coisas profundamente éticas, ainda que imorais dentro de determinado contexto. Como bem diz Maria Luiza Quaresma Tonelli, advogada e mestra em filosofia pela USP, “Agir de forma estritamente moral exige apenas certo grau de obediência; agir eticamente exige pensamento crítico”.

O perigo do pensamento apolíneo é que ele tende a ser demasiadamente moral, segundo preceitos apriorísticos de como se deve viver a vida. O conceito apriorístico é algo dado antes mesmo de nascermos. A sociedade diz que devemos ser mais de um jeito que de outro. Se você nasceu numa cultura muçulmana ou frequenta a maçonaria, aprendeu que “viver em harmonia” é cultivar pragma e refrear pathos. Se nasceu na cultura cristã, aprendeu que o “equilíbrio” lhe é garantido ao cultivar agape. Mas tudo isso é moral, pois segue os costumes de uma dada tradição, e nem sempre as determinações de equilíbrio preestabelecidas falarão à sua ética.

Em contrapartida, não vivemos sozinhos, e sim em sociedade. Para haver o mínimo de civilização, é preciso que existam interditos, limites. A ausência absoluta de culpa só está presente em psicopatas. Viver apenas o que se é e fazer apenas o que se quer não parece condizente com a vida em sociedade. Não é à toa que a maioria dos dionisíacos pertence ao meio artístico: a trilha de Dionísio só parece funcionar bem, sem machucar ninguém, no plano das artes de da ficção. Já pensou num filme ou livro em que os personagens vivem o tempo todo em perfeita harmonia? Nem dá vontade de assistir ou ler. O que fascina no mundo ficcional é a possibilidade de vislumbrar estereótipos, personalidades extremas, situações intensas. É o que gera emoção, nos fazendo chorar, rir, sentir raiva. Talvez seja por isso que gostamos tanto de novelas, filmes, contos. São válvulas de escape em um mundo que nos convida o tempo todo a ser “mais equilibrados”.

DODSWORTH, Alexey. Os seis caminhos do amor. Verus: Campinas, SP, 2012. pgs 178-180.

Maquiavel versus Antígona nas redações

Renato Janine Ribeiro

No curso de jornalismo da ESPM, onde tenho lecionado ética, me surpreendi ao ver que a maior parte dos alunos entregou trabalhos sobre Maquiavel; as alunas, sobre Antígona. É claro que, como o pensador italiano disse que “a fortuna é mulher” e ama quem a espanca, e como Antígona é feminina, poderia haver uma solidariedade respectivamente machista e feminista (lembrando que o primeiro termo é pejorativo, o segundo, descritivo ou mesmo elogioso). No curso, repudiei a pecha de “maquiavélico” para o filósofo, mostrando que ele descreve o poder como é, sem fantasias; mesmo assim, os homens se sentiram mais identificados com a perspectiva do poder, que é a dele. Maquiavel é um dos poucos pensadores a colocar seu leitor no lugar do poder, no lugar do príncipe ou rei, como então se entendia; a maior parte dos teóricos da política situava o leitor como súdito, em tempos monárquicos, ou como cidadão, em épocas republicanas. Há duas formas de pensar o poder, ex parte populi (da perspectiva do povo) ou ex parte principe (do ângulo do príncipe, do governante). Maquiavel pensa do viés do príncipe, mas a novidade é que seu governante é novo, recém-tomou o poder, pode ser qualquer um de nós: é um príncipe que até ontem era do povo. Por isso, sua tarefa é difícil: precisa persuadir os súditos a obedecê-lo, a ele, um homem novo, sem tradição. Hoje, todo governante é novo e, eleito, precisa persuadir a sociedade a respeitá-lo, porque – quanto mais democrática for a sociedade e menos Júniores ou Filhos eleger – mais serão novos os seus presidentes.
O interessante em estudar Maquiavel é tentar entender como funciona o poder, de dentro. O moralismo dominante em nossos dias barra a compreensão da política, justamente porque lhe impõe critérios que não funcionam nela. A oposição assim acusa o governo de fazer o que ela, no seu lugar, fez ou fará. Já Maquiavel não tem medo de colocar o dedo nesta ferida.
O caso de Antígona – personagem da peça homônima de Sófocles, que data do século V a.C. – é totalmente diferente: ela se opõe ao poder, em nome das leis divinas ou (diríamos nós, hoje, após a peça de mesmo nome de Jean Anouilh) da consciência moral. É digno de nota que a primeira personagem da cultura ocidental a enfrentar radicalmente o poder de Estado seja uma mulher. É como dizer: ante um poder masculino, que privilegia a razão de Estado, valores autênticos são assumidos pelas mulheres.
Por que minhas alunas preferiram Antígona, meus alunos Maquiavel (claro que sempre com exceções)? Há o óbvio, o poder geralmente foi exercido pelos homens, em nosso mundo. Mulheres ficavam na vida privada. Ensinavam valores aos filhos. Os homens aprendiam que, para vencer na vida ou simplesmente sobreviver, precisavam relativizar os valores. Aprendiam que, nas horas decisivas, o realismo vencia a ética. “Sua mãe é uma santa, mas na hora do vamos-ver não dá para ser assim, meu filho”; e por isso matavam, subornavam, traíam. Coloquei os verbos no passado, mas podemos passar ao presente – o problema continua. Só que hoje homens e mulheres estão próximos; relativizar o valor, priorizar o sucesso acontece com todos; daí, a sensação desconfortante de que a ética sumiu, porque nem mais a mãe, nem mais a mulher, cuida dela.
Maquiavel mostra bem este mundo em que a regra não tem mais lugar garantido e a decisão de violá-la se toma inúmeras vezes; o que podemos aprender com ele é que a exceção à regra não é mero desregramento, mas tem sua lógica. Ele nos dá a chance de sair do moralismo hipócrita de quem vê o cisco no olho do outro e finge não enxergar a trave no seu. Já Antígona expressa a rebeldia no que tem de mais belo. O que, porém, muitos e muitas esquecem é que essa rebelde pagou um preço alto. Por ser fiel a seus ideais, foi executada. Hoje, a questão não é tanto termos rebeldes sem causa, é termos rebeldes sem custo: gente que pensa que infringir a lei se faz por capricho (não, como no caso de Antígona, com plena consciência) e que não se paga nada por isso. Corremos o risco de viver um Maquiavel e uma Antígona baratos, sem valor.

Memorial de leitura de Israel

O objetivo deste texto é mostrar de que maneira a leitura se tornou parte essencial de minha vida. Começo com uma citação de Descartes, na qual consta: “a leitura de todos os bons livros é qual uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversação premeditada, na qual eles nos revelam tão somente os melhores de seus pensamentos[1]”. Esse excerto é representação adequada da importância da leitura para mim, pois, como ler é um processo de decodificação, compreensão e assimilação mental de uma mensagem, devido à minha tentativa de escolher, à moda de Descartes, precisamente os livros que se destacaram em cada século, a leitura se torna a absorção de movimentos de pensamento de alta qualidade. Assim, em tese, eu posso viver uma vida menos dura.

A forma como esse processo é realizado foi mudando com o tempo, dependendo da fase da formação escolar em que eu me encontrava. Durante a educação básica, não havia tanta escolha de minha parte. Para atingir a habilidade necessária para encarar textos mais complexos, era preciso passar por alfabetização e, depois, por um refinamento desse saber recém-adquirido. O processo se dava de forma artesanal e repetitiva, consistindo predominantemente de três práticas. Uma delas era responder a questões, procurando em textos, figuras, símbolos e qualquer outro meio de passar a mensagem, escolhido pelos educadores,  a parte da mensagem que serviria como resolução da pergunta realizada. Outra era responder a perguntas cujas respostas pressupunham o uso, não de um texto específico, mas de todo o conhecimento adquirido até ali. Por último, tendo os meus professores, em geral, a ideia de que ler e escrever são dois lados de uma mesma moeda, havia a prática ocasional da escrita, em avaliações de redação nas quais se deveria usar todo o conhecimento de mundo que se tinha. Fora da escola, eu lia aquilo que os meus critérios incipientes de jovem leitor apontavam como de boa qualidade e que estavam disponíveis por um bom preço.

No ensino superior, ocorreu um intenso refinamento generalizado. Fui exposto a uma série de métodos de leitura, que me mostraram que é possível realizar de várias maneiras as etapas do processo de ler. O método específico do curso de Filosofia, o estruturalista, foi o que mais me chamou a atenção. Havia nele especificidade e uma intensa apologia ao rigor e à precisão que não vi nos outros. Ele também apresenta a pretensão de suprimir a influência da ideologia do leitor, de maneira que este recebesse as ideologias do texto sem julgá-las positiva ou negativamente no momento do recebimento. Isso se dá de duas formas. Primeiro, incentiva-se o leitor a adotar uma postura neutra diante do texto. Eis o que afirmam Folscheid e Wunenburger:

Para ler realmente um texto, devemos nos colocar ingenuamente diante dele, sem preconceitos de nenhuma espécie, sem expectativas, sem saberes prévios – ou lembranças de saber.

Disso resulta que é necessário afastar o que se sabe para se contentar com o que se lê. Caso contrário, você não enxerga. Sobretudo, não enxerga aquelas evidências maciças que, como bem diz a expressão consagrada, “saltam aos olhos”[2].

Depois, entra em ação o método estruturalista propriamente dito, desenvolvido na França do século XX por Victor Goldschmidt e Martial Guérrout, e que me foi apresentado como aquele que permite uma real objetividade na leitura dos sistemas filosóficos, a salvo das distorções que frequentemente vêm com a interpretação pura e simples. Sobre isso, diz Porchat:

Objetividade que consiste na reconstituição explícita do movimento de pensamento do autor, refazendo seus mesmos caminhos de argumentação e descoberta, segundo seus diversos níveis, respeitando todas as suas articulações estruturais, reescrevendo, por assim dizer, segundo a ordem das razões, a sua obra, sem nada ajuntar, entretanto, que o filósofo não pudesse e devesse assumir explicitamente como seu. E sem esquecer um só instante que “as asserções de um sistema não podem ter causas, ao mesmo tempo próximas e adequadas, senão razões. E razões conhecidas do filósofo e alegadas por ele”[3].

O estruturalismo filosófico também exige que se façam protocolos de leitura, que consistem em anotar, sobre cada parágrafo lido, qual o seu tema, a tese, e os passos argumentativos usados para justificá-la. Isso evita anacronismos e outras distorções. Depois, faz-se um esquema sobre o todo do texto.

De um lado, pôr em prática todas essas exigências é minha principal dificuldade no ensino superior. Muitas vezes, nenhum conceito prende imediatamente o olhar; nenhuma tese parece se destacar. É difícil pôr o dedo na tese e separá-la dos movimentos argumentativos que lhe dão sentido, o que faz a produção e organização de artigos sobre os autores lidos uma tarefa árdua. Conforme os semestres passam, ler se torna uma tarefa cada vez mais vagarosa.

Também é difícil concretizar o outro lado da moeda, a escrita. Há sempre grande medo em deixar um dos passos argumentativos dos autores de fora, sob pena de a ideia exposta não ficar clara e do texto final parecer uma colcha de retalhos. No entanto, um cuidado excessivo com a exposição do autor pode tornar o texto prolixo e carente de objetividade.

De outro lado, as especificidades da leitura filosófica muitas vezes me dão facilidade em identificar conceitos nos discursos alheios, nos diálogos de pessoas e personagens, nos textos e mesmo em pesquisas científicas, me permitindo absorvê-las em minha vida ou rejeitá-las. Isso porque as mensagens presentes nos textos filosóficos são totalmente redutíveis a um pensamento racionalmente conduzido, que se move apenas no domínio conceitual. Assim, nas pesquisas científicas, um dos conhecimentos mais valorizados hoje, é possível separar o que são fatos das interpretações sobre eles.

Por lidar com obras de todos os séculos, tenho de encarar estilos de escrita muito diferentes do exigido hoje. Isso causa um grande estranhamento. Há textos extremamente herméticos, como a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, que mesmo estando em português, exigem quase o mesmo trabalho que ler um texto em outra língua. Os livros e artigos sobre fenomenologia são os que mais me causam deslumbramento e dificuldade.

As leituras com que mais me identifiquei foram os textos nos quais permeava um tom analítico, em especial os de ceticismo ou aqueles com um quê cético, como O discurso do método de Descartes. Eles propõem a análise e remoção da maior parte das crenças de um indivíduo, o que é ótimo para limpar muitos preconceitos, crenças absorvidas sem pensar, injunções, amores a ideias por mera tradição e a manutenção apenas de poucas ideias necessárias à vida, e mesmo estas não sendo fixas e podendo sempre mudar. A postura investigativa do ceticismo também previne à adesão a ideias que pareçam mais convincentes de início, fazendo com que o aprendiz de cético deixe seu juízo suspenso por quanto tempo for necessário até que decida se aquela noção vale alguma coisa ou não.

Outro exemplo é Problemas de Gênero, de Judith Butler, que me mostrou que os papéis supostamente fixos de homem e mulher são, na verdade, construídos culturalmente, e que a dose de escolha do indivíduo sobre até que ponto segui-los é muito maior do que o que se supõe. Mais um estudo que fez bastante diferença na minha formação foi o estudo de filosofia da linguagem, que mostrou a dose de preconceitos e ideias que entram no indivíduo simplesmente por aprender linguagem, e como a língua é racista, machista, homofóbica e tem intrínsecas várias outras ideias de má qualidade. A descoberta desses estudos melhora minha relação com as pessoas.

Com efeito, é pelos motivos citados anteriormente, a saber, o contato com os melhores pensamentos das pessoas mais qualificadas da história, a alta absorção conceitual que o método estruturalista proporciona, e o teor analítico sobre o mundo, as sociedades e os indivíduos em geral, é que considero a leitura importante no meu ensino superior, porque quem sai de um curso de humanas tem grandes chances de ser um formador de opinião e é preciso entender muito bem como elas funcionam para não ajudar a formar opiniões dogmáticas, mal pensadas, preconceituosas.

Minhas leituras habituais são os livros da faculdade, livros de literatura e colunas de jornal que considero interessantes, como a de Eliane Brum. Além de alguns blogues de pessoas cujas ideias aprecio. Já a minha família lê pouco ou nada. Meu pai não lê; minha mãe e irmãos leram na escola e o livro de bobagens Ágape, do Padre Marcelo Rossi, lançado em 2010.

BIBLIOGRAFIA

DESCARTES, René, Discurso do método,  tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Jr, in  Descartes I, São Paulo, Nova Cultural, coleção Os Pensadores, 4ª edição, 1987.

FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica, tradução de Paulo Neves, São Paulo, Martins Fontes, 3.ª Edição, 2006.

GOLDSCHMIDT, Victor. A religião de Platão, prefácio introdutório de O. Porchat, tradução de IEDA e O. Porchat, São Paulo, Divisão Europeia do Livro, 2.ª Edição, 1970.


[1] DESCARTES, René, Discurso do método,  tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Jr, in  Descartes I, São Paulo,

Nova Cultural, coleção Os Pensadores, 4ª edição, 1987.

[2] FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica, tradução de Paulo Neves, São Paulo, Martins Fontes, 3.ª Edição, 2006.

[3] GOLDSCHMIDT, Victor. A religião de Platão, prefácio introdutório de O. Porchat, tradução de IEDA e O. Porchat, São Paulo, Divisão Europeia do Livro, 2.ª Edição, 1970.

Os quatro preceitos do método de Descartes

Descartes diz que para a busca da verdade é necessário um método que está fundamentado em quatro preceitos.  Aqui estão eles, nas palavras do próprio Descartes:

O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.

O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las.

O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.

E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir.

O primeiro preceito visa, então, evitar duas más condutas na busca pela verdade: a precipitação e a prevenção. A primeira consiste em julgar sem ter chegado à evidência e a segunda, em insistir nos prejuízos da infância. O primeiro preceito mostra, também, a solução para evitar tais mazelas: a dúvida. Ou seja, uma vez que esta existe e motiva aquele que busca pela verdade a verificar o conceito que se quer mostrar verdadeiro de todas as formas racionalmente possíveis, se este passar nos testes e não mais for alvo de nenhuma dúvida, ele se mostrará efetivamente verdadeiro, porque foi comprovado por meio de análise feita pelo intelecto, e não por meio de conceitos não testados – precipitação – ou simplesmente absorvidos sem reflexão – prevenção.

O segundo preceito diz que é necessário dividir um conceito no maior número de partes possível para então começar a analisá-lo. Em termos contemporâneos pode-se concretizar esse conceito por meio do exemplo químico das superfícies de contato.  Superfície de contato é toda a área de um sólido em que ele pode ser tocado.  A velocidade de uma reação química depende da superfície de contato. Quanto maior esta maior aquela. Nos sólidos, as reações químicas começam na superfície externa para depois alcançarem seu interior. A superfície externa é a que propicia o contato direto entre os reagentes.  Ao partir-se um sólido ao meio soma-se à superfície externa a região antes interna que agora foi exposta. É por isso que um produto em pó se dissolve muito mais rápido do que aquele em barra. Como o pó nada mais é do que uma barra em milhares de pedaços, a superfície de contato está milhares de vezes aumentada e portanto a velocidade da reação também está. Trazendo o exemplo para o mundo de Descartes, a barra é um conceito. Será muito mais fácil entendê-lo se este for dividido em várias partes assim como o pó é mais facilmente absorvido.

O terceiro diz que é necessário conduzir os pensamentos em ordem crescente de grau de dificuldade, ou seja, os conceitos mais difíceis dependem dos mais fáceis. Pode-se fazer um paralelo com a leitura e a escrita. Para se aprender a ler é primeiro necessário saber as letras do alfabeto. Depois a maneira como as sílabas são compostas, as regras de acentuação e pontuação, figuras de linguagem e assim sucessivamente, mas todas ferramentas da língua dependem do conhecimento do básico alfabeto. Pode-se usar ainda o exemplo da matemática. Para resolver problemas complexos de geometria ou álgebra, é necessário o conhecimento das quatro operações básicas.

Para explicar o quarto preceito segue-se explicação do próprio Descartes:

Para o acabamento da ciência, é preciso passar em revista, uma por uma, todas as coisas que se relacionam com a nossa meta por um movimento de pensamento contínuo e sem nenhuma interrupção, e é preciso abarcá-las numa enumeração suficiente e metódica.

A observação do que é proposto aqui é necessária para admitir como certas essas verdades que, como o dissemos mais acima, são deduzidas dos princípios primeiros e conhecidos por si sós, mas não imediatamente. Com efeito, isso algumas vezes é feito por um encadeamento de conseqüências tão longo que, depois de ter atingido essas verdades, não é fácil nos lembrar de todo o caminho que a elas nos conduziu; é por isso que dizemos que se deve remediar a fraqueza da memória com uma espécie de movimento contínuo do pensamento.

De acordo com esse principio o conhecimento deve ser visto e revisado várias vezes de forma minuciosa e metódica garantindo assim que nenhum dado foi omitido e depois deve ser exposto de maneira elementar e em ordem para que seja guardado na mente de forma permanente e clara. Temos, então, com esses quatro preceitos, a base do método de Descartes.