Trabalhar, sempre

Trabalhar na terceira idade não é impossível. Quem quer, faz e faz muito bem. É o caso de Napoleão Mendes de Almeida, 83 anos, professor de Latim, Português e Filosofia, 83 anos, criador do Curso de Português por Correspondência e autor de uma Gramática Portuguesa, do Dicionário de Questões Vernáculas e de Mensagem do Halley: Deus não Existe. Nove anos mais nova, Alzira Lopes também não para: à frente do Instituto da Família, ela dá aulas, participa de seminários e ainda acha tempo para escrever livros, entre eles Casa de Pais, Escola de Filhos, além de Como Viver Feliz seus Cem anos. Para a Dra. Alda Ribeiro, especialista em geriatria e gerontologia pela Universidade de Pavia, na Itália e delegada da Associação Nacional de Gerontologia, “habituamo-nos a falar só em preparo físico, mas precisamos nos acostumar a pensar em estar em forma em todos os sentidos”. Para ela, o processo de envelhecimento é controlado pelo cérebro. E acrescenta: se mantivermos o cérebro atuante, interessado, aberto, alerta, o processo de envelhecimento será o mais natural possível”. Veja dois exemplos de pessoas que, apesar da idade, mantêm-se alertas e atuantes.

 

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Berenice Guimarães

Ele gosta de dormir cedo, antes das 22 horas. Mas nunca sem ler um livro e passar os olhos pelo dicionário ao lado. Às vezes, nem tem tempo de virar uma página pois cai no sono antes. É que se levanta cedinho: às 5h30 já está de pé. Pouco depois pega seu carro e vai para o trabalho, no centro velho da cidade. Nada anormal se Napoleão Mendes de Almeida não tivesse 83 anos de idade.

Às 11h50 em ponto sai para almoçar lá mesmo, nos arredores. Volta ao escritório e só vai embora por volta das 19 horas. Seu segredo, ele confessa: a mortificação. “Abster-se de coisas boas e que fazem mal e manter uma dieta equilibrada, dando preferência a frutas e a legumes”. “Uísque, explica ele, “só de vez em quando, mas não abuso”.

Um difícil começo

Eram sete irmãos. Só restou um, pouco mais novo que Napoleão. Seus pais eram modestos. O pai, lavrador, e a mãe, preocupavam-se com os filhos. Queriam que Napoleão aprendesse a língua portuguesa e pediram ao vigário de Itaí, cidadezinha do Interior paulista, que lhe desse aulas. Depois de três aulas, o menino de sete anos queria mais e logo o vigário lhe ensinou tudo o que sabia… Aos 12 anos, partiu para sua primeira viagem a São Paulo. Destino: internato do Liceu Coração de Jesus, nos Campos Elísios.

Naquela mesma noite, um padre deu a triste notícia: “Perdemos Rui Barbosa”. Com 12 anos, o adolescente Napoleão chorou.

A vida no internato correu tranquila, mas as férias em Itaí são inesquecíveis: banho no Córrego dos Carrapatos, jogos de malha, além de fazer e soltar pipas. Numa das últimas férias ouviu da mãe: “Vou morrer este ano e você não vai mais voltar a Itaí”. Ele obedeceu e São Paulo ficou sendo sua cidade.

De 1923 a 1926 estudou interno no Liceu Coração de Jesus. De 1927 a 1930 foi para Lavrinhas, no Instituto Salesiano de Pedagogia e Filosofia. Já era clérigo e usava batina. Depois dos estudos, os padres davam um prazo de três anos para que se comprovasse a vocação de religioso. Napoleão sentia-se contrariado porque não encontrava nos outros a mesma crença que tinha.

Dúvidas que o transformaram num crítico severo da religião, ao ponto de dizer: Acho muito difícil acabar com a causa principal do transtorno humano que é a religião. Como extingui-la? Como transformar igrejas em escolas, pois a religião é a causa da falta de paz no mundo?” Estas mesmas dúvidas fizeram com que em 1986 publicasse o livro Mensagem do Halley: Deus não existe. Na capa, um desafio: Replique, se for capaz, o que aqui se encontra”.

Anos rebeldes

Para ele, começaram no dia 2 de fevereiro de 1931. Napoleão, com 20 anos, deu sua primeira aula no Liceu Coração de Jesus. E, apesar de sempre ser chamado de professor, descobriu logo que aquela não era a sua profissão. O dinheiro que ganhava nas 39 aulas semanais que começavam, diariamente, às 7 horas e só terminavam às 22h45 mal dava para pagar seu quarto de pensão. E de tanto trabalhar, ocorreu o inevitável, ficou tuberculoso.

Precisou ir para Campos do Jordão em tratamento. Lá conheceu sua primeira mulher. Quando estava com 25 anos se casaram. Não quis filho neste casamento. E afirma que foi coerente: “não achava a vida interessante, havia uma grande incerteza…”. Separou-se da mulher e sobre filhos, falou: “Não sei como existe gente que tem coragem de fazer outros nascerem”.

O médico que o tratou em Campos do Jordão, Nestor Reis, conversava sempre com o professor sobre dúvidas de Português. Um dia, fez-lhe uma pergunta e Napoleão respondeu: “escrevo a resposta em São Paulo e lhe mando pelo correio”.

O professor gastou duas páginas para responder e esta correspondência foi repetida mais uma vez. Quando entregou a segunda carta o médico perguntou-lhe: “você não pensa em escrever para uma revista?” Naquele momento, ele pensou: “este homem está me provocando a dar um passo na vida”.

Pegou os papéis com as perguntas do médico e suas respostas e foi até à antiga sede do jornal O ESTADO DE S. PAULO. Pediu para falar com o secretário da redação, Leo Vaz, e disse que o assunto era particular. Quando foi recebido encheu-se de coragem e falou: “vocês perderam João Ribeiro (gramático e colaborador do jornal); tenho a pretensão de dizer que quero substituí-lo. Deixo aqui os artigos que escrevi para serem julgados”. Um mês depois, o primeiro artigo foi publicado e ao novo colaborador perguntaram se era capaz de escrever um artigo por semana. Depois, passou a escrever duas vezes por semana.

Nasce um curso

Depois que começou a publicar seus artigos no Estadão, Napoleão Mendes de Almeida passou a receber muitas cartas de leitores. Ia sempre ao Correio levar as respostas. Um dia leu, num jornal, o anúncio da International School, oferecendo cursos por correspondência de várias matérias. Ele se escreveu em inglês. Pacientemente, esperou todo o ano de 1937 para se tornar mais conhecido pelos seus artigos no jornal. No início de 1938 mandou imprimir um folheto, oferecendo seu curso de Português por correspondência. O anúncio foi encartado nas 60 mil listas de assinantes de telefone de São Paulo. Além disso o Estadão noticiou a empreitada de seu colaborador. O resultado: conseguiu apenas 11 alunos. Batalhou e arranjou mais alguns. Quando completou 38 decidiu começar o curso. Em fevereiro mandou a primeira semana de lições e ganhou cem mil réis.

A primeira mulher criticava o curso: “Não sei por que você não larga essa bobagem e arruma um emprego”. Ele respondia: “Vou largar de você”. Os alunos foram aumentando e em 1949 já chegavam a mil e poucos.

Desilusão

Apesar disso tem grande mágoa com a profissão: “Uma mágoa econômica”, explica ele. “Não conseguia sensibilizar ninguém para o trabalho do professor de Português, muito maior que o de desenho, por exemplo”.

Em 1944 o diretor do colégio Bandeirantes queria que Napoleão desse aulas lá. Ele relembra: “Comecei a fazer exigências e depois da oitava perguntei: qual é o salário mais alto que você paga a um professor? Ele respondeu e pedi o dobro. Pensei que ele desistiria, mas respondeu: a primeira aula é amanhã”.

Era professor de Português, Latim e Filosofia. Mas na última cadeira aparecia como substituto, pois achavam-no muito novo para ter o tal título…

No país colonizador

Em 1947 participou de uma excursão aos Estados Unidos. Viúvo, sem saber inglês, ele gostou tanto que prometeu: um dia, ia voltar. E voltou dois anos depois, já casado. Alugou um apartamento e tinha até telefone em seu nome. A página da lista de Nova Iorque com o nome de Mr. Almeida está guardada até hoje.

Era 1949 e Napoleão dava aulas inclusive no Colégio Bandeirantes. Todos os dias o professor se lhe deparava com duas meninas, na R. Estela. Um dia, resolveu mexer com uma delas, que vestia uma blusa muito bem trabalhada. Ele conta: “joguei um elogio à blusa e o resultado: casamos, Maria Lizette e eu”. Dezessete anos depois, por insistência de parentes e de amigos que diziam: “Você tem um patrimônio, não pode abandoná-lo”, resolveu que teriam o primeiro filho. Maria Lizette engravidou e eles viajaram pelo Mediterrâneo. Lá, sempre ouvia frases: “Aqui esteve São Paulo”. Então combinou com a mulher: “se for homem vai ser Saulo, o nome anterior à Igreja”. Saulo hoje é formado em Economia pela Fundação Getúlio Vargas e está preocupado com o país. Chega a falar que quer ir embora.

Prazeres da vida

Sua maior diversão é ler dicionários. Há muitos anos conseguiu comprar, por uma pechincha, de um ex-professor de Inglês que morava em Amparo, um exemplar luxuoso do Webster’s Dictionary. Adora pegar a página onde está descrita a diferença entre “of” e “off”. Cinema também está em sua lista de prazeres. Mas gosta apenas de biografias e filmes sobre natureza. Jacques Cousteau está entre seus prediletos.

Já houve tempo em que gostava de velejar e pescar. Chegou a ter três boxes em Guarujá. Mas vendeu-os e fala com consciência: “A idade para este lazer já terminou”.

Publicado em 10 de Janeiro de 1993 no jornal O estado de São Paulo.