O prazer de reler

Daniel Piza

O jornal Financial Times tem uma seção semanal chamada “Rereadings”, releituras, onde é citada uma frase de Vladimir Nabokov: “um bom leitor, um leitor ativo e criativo, é um releitor”. De fato, depois de uma certa experiência de leitura, reler se torna mais importante do que ler – ou, digamos, mais prazeroso. Longe de mim sugerir que as pessoas devem apenas reler e parem de ler, mas reler é uma ação definidora e definitiva. Jorge Luís Borges dizia que podia conhecer um homem através de sua biblioteca. Pode-se dizer que conhecemos um homem não pelo que ele lê, mas pelo que relê.

E que tipos de livro são os, ops, relegíveis? Vamos a uma lista rápida, na qual muitos podem ser incluídos, mas da qual, em bom-senso, nenhum será excluído. Primeiro, é claro, os clássicos, cuja sina é justamente a releitura. Homero, Ésquilo, Dante, Shakespeare, Cervantes, Rabelais, Fielding, Swift, Balzac, Flaubert, Dostoievski, Tolstoi. Há quem leia Guerra e Paz todo ano, religiosamente: cada leitura traz uma nova leitura… Proust: um dos prazeres da vida é estender – até onde possível – a leitura do ciclo Em Busca do Tempo Perdido: e há edições que indicam cada “leitmotiv” e personagem dos livros para que possamos localizar os tantos diálogos e personagens marcantes. O clássico fascina, de saída, pela arquitetura, pela estrutura ampla e arejada que ergue com equilíbrio sutil; na segunda leitura, a arquitetura continua surpreendendo, mas são os cantos insuspeitados, as portas giratórias e os porões que nos fazem atravessar o edifício todo de novo.

O segundo tipo é o livro dotado de estilo belo ou poderoso, tão próprio do autor que alguns parágrafos bastam para evocar seu mundo, sua dinâmica, a “música da consciência” que os grandes livros nos deixam. Joyce, por exemplo: o prazer está em abrir um de seus romances em qualquer página e reler trechos aleatórios. Em voz alta. Isso também vale para seus contos, como Grace (obrigue-se a ler no original sempre que puder), do livro Dubliners. Os contos de Hemingway, In our time, também passam no teste da leitura em câmara. Alguns dos capítulos mais bem escritos e líricos da língua inglesa são o terceiro Nostromo, de Conrad, e o 19 de Huckleberry Finn, a obra-prima de Mark Twain. De Conrad, Youth é um longo monólogo, escrito para ser lido em duas horas – e é prosa poética das maiores. Há também as digressões de Dick Diver em Tender is the Night, de Scott Fitzgerald, olhando para os aquedutos romanos na Provença. Da língua francesa, para essas “sapeadas” inspiradoras, vá a qualquer um dos Três Contos de Flaubert, onde o estio delicia pela cristalinidade. No polo oposto, cromático e delirante, algumas páginas de Viagem ao fim da noite de Céline, bastam para um prazer inconfundível. Tchecov, Kafka, Thomas Mann, Broch, Heine, Svevo, Lampedusa, Eça de Queirós, Coltázar – cada idioma tem seu estilista cativante.

Há uma subcategoria nesse tipo. São aqueles escritores perfeitos para ser lidos antes de escrever. Em geral, são estilistas da mais alta estirpe, mas seu estilo é sempre lúcido, cadenciado e direto. Jonathan Swift para quem escreve em inglês ou H. L. Mencken (O livro dos insultos) e o maior estilista vivo, Philip Roth (Operação Shylock). Voltaire, Montaigne ou, pulando para os modernos, Reymond Radiguet (O diabo no corpo) em francês. E assim por diante: cada escritor tem seu “aquecedor” idiomático. Em português brasileiro, digamos assim, há dois escritores que são para mim o que há de mais rico e mais luminoso em termos de estilística: Machado de Assis e Graciliano Ramos. As primeiras páginas de Brás Cubas ou as últimas de Dom Casmurro, a terrível abertura de Angústia ou os contos que se passam em hospital de Infância são textos tecidos com fio de náilon, finos e firmes ao mesmo tempo. Escritores para ler antes de escrever são em geral assim, estilistas antipreciosistas com grande distanciamento de sua própria narração, e, no entanto, pessoais, inequívocos. Ninguém constrói uma frase como Machado. O ritmo de Graciliano vem com timbre único.

Machado e Graciliano, por sinal, cultivavam os chamados gêneros “menores” e até se apropriavam dessa cultura na técnica narrativa de seus romances. Memórias do Cárcere e Memorial de Aires são livros que, já por sua natureza coloquial e descontínua, convidam à releitura. Memórias, diários e cartas podem ser muito chatos, mas quando são bons são releituras insubstituíveis. As cartas de Voltaire e Leonardo Woolf, os diálogos de Pepys e Evelyn Waugh e as memórias de Bertrand Russell e John Ruskin – ou Pedro Nava, no Brasil – são essencialmente para reler, para volta e meia apanhar da estante e ler partes. Como as obras de Shakespeare e Proust, são livros amigos que nos acompanham a vida toda e ocupam a prateleira mais alta.

Por fim, o melhor: a poesia. Todo poema deve ser relido, tal sua natureza sintética. Há poetas cuja música é tão poderosa – Chaucer, Villon, Dickinson, Keats, Yeats, Eliot, Baudelaire, Rimbaud, Rilke, Augusto dos Anjos, Murilo Mendes, os sonetos de Shakespeare – que é preciso reler muito para vencer a barreira linguística e olhar o poema com maior objetividade. Há outros cuja música é enganosamente simples – Wallace, Stevens, Auden, Verlaine, Pessoa, João Cabral, Drummond, Bandeira – e a releitura é condição para apreender sua verdadeira grandeza. Há também poetas que já ouvimos lendo seus próprios poemas – como Ezra Pound e Dylan Thomas – e ao reler ouvimos inescapavelmente suas vozes, com todas as asperezas e as inflexões, o que também é um prazer enorme.

Nenhuma lista, porém, deve ser fechada, ainda que um releitor ativo e criativo saiba que reler um escritor continuamente é criar uma relação afetiva duradoura como quase nenhuma relação humana pode ser. É a amizade ideal. Mas, para essa lista se mantenha aberta, vale ficar atento ao que nossa época está relendo. George Eliot (Middlemarch) e Henry James (The golden bowl), por exemplo, talvez nunca tenham sido tão lidos quanto agora. São escritores de sutileza assombrosa, que só gerações de afastamento permitem ver de corpo inteiro. A civilização rele o tempo todo. Na definição precisa de cultura formulada por Octavio Paz, “ser culto é pertencer a todos os tempos e a todos os lugares sem deixar de pertencer a seu tempo e a seu lugar”. Reler é manter essa válvula aberta nos dois sentidos. Conhecer é reler.

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