Erro de português?

Por Anderson Luís de Souza

Imagine um coletivo de cães, uma matilha. Numa matilha, não importa a raça dos cães, a cor, o tamanho; todos são cães e não há cães melhores nem piores: apenas cães; beleza ou feiura, além de ser algo que vem de fora (gosto de quem observa os cães, por exemplo), em nada influência na matilha: todos os seres que dela fazem parte são cães; não há piores nem melhores, certos ou errados: apenas cães. Nenhum biólogo que analise a matilha excluirá algum de seus integrantes da categoria de cão, a não ser que encontre dados científicos que o permitam fazê-lo. Não importa que haja cão cego, sem uma perna, surdo: todos são igualmente cães.

Pois bem. Com a língua portuguesa, ocorre algo semelhante; ela é coletivo de várias formas de língua: culta, coloquial, gíria, etc., etc., etc. Todas essas formas de língua formam o que conhecemos por língua portuguesa. A chamada língua culta é tão língua portuguesa como a dita língua popular. Ocorre que, em sociedades como a nossa, há uma forma de língua que goza de maior prestígio social (note que isto é algo que vem do exterior, e não da própria língua: a sociedade é que atribui valor a cada forma de língua; é exatamente como no caso da matilha em que se acha um cão mais belo que o outro, melhor ou pior que o outro). Assim como se levarmos a matilha ao biólogo para que este a analise, ela nos dirá que todos são cães porque todos atendem aos requisitos que os permitem ser classificados como cães, se levarmos para a sintaxe (que é uma ciência) uma construção como “nóis come os bolo”, constataremos que ela é tão português como “nós comemos o bolo”, pois se enquadra no sistema sintático da língua portuguesa:

“nós comemos o bolo”

nós (sujeito), comemos (verbo), o bolo (objeto direto)

“nóis come os bolo”

nóis (sujeito), come (verbo), os bolo (objeto direto).

A sintaxe – assim como a biologia no caso da matilha mostra que todos são cães – mostra que as duas construção são português, o que nos impede de dizer – cientificamente – que “nós come os bolo” seja um erro de português. Trata-se, na verdade, de uma variedade sintática da mesma oração. A diferença é social (exterior ao sistema linguístico): a “nós comemos os bolos” se dá maior prestígio porque é a variedade que as pessoas ditas cultas usam, ao passo que “nóis come os bolo” é desprestigiada porque é falada por gente dita inculta. Mas, linguisticamente, isto é, cientificamente, as duas construções são equivalentes, não havendo, pois, erro de português na segunda.

Um erro de português é uma construção que se desvia do sistema linguístico da língua portuguesa:

“Bolos os nós comemos.”

Note-se que, aqui, as palavras estão todas de acordo com a dita norma culta, mas a construção é agramatical, uma vez que, só para começar, a língua portuguesa não nos permite pôr o artigo após o substantivo a que se refere: “os bolos”, e nunca “bolos os”: “bolos os” é, portanto, cientificamente, erro de português. Isso também vale para as palavras: nossa língua também não permite que uma palavra termine em “t” nem sílaba sem vogal, por exemplo. Quando se põe um artigo masculino diante de uma palavra feminina ou vice-versa, comete-se um erro de português: “o mulher morreu”, “a homem morreu”, visto que o sistema do português recusa que se anteponha o artigo masculino a palavra feminina e vice-versa.

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