A dupla negação e a estilística

Por Anderson Luís de Souza

Línguas há em que não existe a dupla negação; mas, quando se traduz em português algum texto dessas línguas, forçoso é empregar a dupla negação, sob pena de mudar o sentido do texto. Há boa diferença entre “durante toda a minha vida fiz nada” e “durante toda a minha vida não fiz nada”: na segunda digo que não fiz nada de fato; na primeira, que fiz alguma coisa, mas esta alguma coisa não era nada, ou, pelo menos, no fim das contas, cheguei à conclusão de que essa coisa não valia nada; “nada”, no caso, torna-se um substantivo negativo perfeito para descrever estados de espírito. Vejam: “Euclião ganhou muito dinheiro durante a sua vida, mas não teve tempo para a família, quer dizer, ganhou nada”. Machado de Assis, no “Quincas Borba”, usou a negação única para descrever o estado de espírito de Rubiáo, a personagem principal do livro, a qual enlouquecera a ponto de pôr na cabeça algo que nem sequer era uma bacia velha, cuidando que fosse uma coroa: “Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada”. Notem como o não uso da dupla negação descreve magnífica e tragicamente o estado de espírito do louco Rubião.

Em suma: a dupla negação é que é a construção normal em português; a negação única é anomalia: é estilística.

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