A ética e a moral

Voltemos a um assunto que abordei no capítulo 9 e que demanda melhor fixação, já que pessoas das mais diferentes orientações culturais e religiosas provavelmente lerão este livro. Fiz mestrado em filosofia política e ética. A primeira e talvez mais importante coisa que aprendi foi o filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) quem me ensinou: moral e ética não são a mesma coisa.

A moral se refere a um conjunto de valores e interditos estabelecidos por determinadas culturas em épocas específicas, e eles variam muito. A moral dita os costumes e o que é certo ou errado, legalmente falando. Por exemplo: relações homossexuais não são morais no Egito, constituindo crime. No Brasil, não são ilegais, mas são consideradas imorais por diversas correntes religiosas. Na Holanda, não costumam receber julgamento moral. Outro exemplo: mulheres sem véu no Afeganistão são tidas como imorais. No Brasil, não. Um homem pode se casar com quatro mulheres no Oriente Médio, sendo isso considerado um ato de generosidade. No Brasil, seria crime.

A ética está além da moral, envolve mais pensar do que simplesmente obedecer. As duas coisas podem coincidir ou até mesmo entrar em antagonismo. É ético e moral em nosso país, por exemplo, não roubar. Há, contudo, coisas que são antiéticas, mas não são imorais (ou ilegais). E há atos profundamente éticos, mas que são considerados ilegais. Você mesmo pode fazer um exercício mental e descobrir várias coisas “legalmente corretas”, mas eticamente erradas. Descobrirá que há coisas profundamente éticas, ainda que imorais dentro de determinado contexto. Como bem diz Maria Luiza Quaresma Tonelli, advogada e mestra em filosofia pela USP, “Agir de forma estritamente moral exige apenas certo grau de obediência; agir eticamente exige pensamento crítico”.

O perigo do pensamento apolíneo é que ele tende a ser demasiadamente moral, segundo preceitos apriorísticos de como se deve viver a vida. O conceito apriorístico é algo dado antes mesmo de nascermos. A sociedade diz que devemos ser mais de um jeito que de outro. Se você nasceu numa cultura muçulmana ou frequenta a maçonaria, aprendeu que “viver em harmonia” é cultivar pragma e refrear pathos. Se nasceu na cultura cristã, aprendeu que o “equilíbrio” lhe é garantido ao cultivar agape. Mas tudo isso é moral, pois segue os costumes de uma dada tradição, e nem sempre as determinações de equilíbrio preestabelecidas falarão à sua ética.

Em contrapartida, não vivemos sozinhos, e sim em sociedade. Para haver o mínimo de civilização, é preciso que existam interditos, limites. A ausência absoluta de culpa só está presente em psicopatas. Viver apenas o que se é e fazer apenas o que se quer não parece condizente com a vida em sociedade. Não é à toa que a maioria dos dionisíacos pertence ao meio artístico: a trilha de Dionísio só parece funcionar bem, sem machucar ninguém, no plano das artes de da ficção. Já pensou num filme ou livro em que os personagens vivem o tempo todo em perfeita harmonia? Nem dá vontade de assistir ou ler. O que fascina no mundo ficcional é a possibilidade de vislumbrar estereótipos, personalidades extremas, situações intensas. É o que gera emoção, nos fazendo chorar, rir, sentir raiva. Talvez seja por isso que gostamos tanto de novelas, filmes, contos. São válvulas de escape em um mundo que nos convida o tempo todo a ser “mais equilibrados”.

DODSWORTH, Alexey. Os seis caminhos do amor. Verus: Campinas, SP, 2012. pgs 178-180.

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