Maquiavel versus Antígona nas redações

Renato Janine Ribeiro

No curso de jornalismo da ESPM, onde tenho lecionado ética, me surpreendi ao ver que a maior parte dos alunos entregou trabalhos sobre Maquiavel; as alunas, sobre Antígona. É claro que, como o pensador italiano disse que “a fortuna é mulher” e ama quem a espanca, e como Antígona é feminina, poderia haver uma solidariedade respectivamente machista e feminista (lembrando que o primeiro termo é pejorativo, o segundo, descritivo ou mesmo elogioso). No curso, repudiei a pecha de “maquiavélico” para o filósofo, mostrando que ele descreve o poder como é, sem fantasias; mesmo assim, os homens se sentiram mais identificados com a perspectiva do poder, que é a dele. Maquiavel é um dos poucos pensadores a colocar seu leitor no lugar do poder, no lugar do príncipe ou rei, como então se entendia; a maior parte dos teóricos da política situava o leitor como súdito, em tempos monárquicos, ou como cidadão, em épocas republicanas. Há duas formas de pensar o poder, ex parte populi (da perspectiva do povo) ou ex parte principe (do ângulo do príncipe, do governante). Maquiavel pensa do viés do príncipe, mas a novidade é que seu governante é novo, recém-tomou o poder, pode ser qualquer um de nós: é um príncipe que até ontem era do povo. Por isso, sua tarefa é difícil: precisa persuadir os súditos a obedecê-lo, a ele, um homem novo, sem tradição. Hoje, todo governante é novo e, eleito, precisa persuadir a sociedade a respeitá-lo, porque – quanto mais democrática for a sociedade e menos Júniores ou Filhos eleger – mais serão novos os seus presidentes.
O interessante em estudar Maquiavel é tentar entender como funciona o poder, de dentro. O moralismo dominante em nossos dias barra a compreensão da política, justamente porque lhe impõe critérios que não funcionam nela. A oposição assim acusa o governo de fazer o que ela, no seu lugar, fez ou fará. Já Maquiavel não tem medo de colocar o dedo nesta ferida.
O caso de Antígona – personagem da peça homônima de Sófocles, que data do século V a.C. – é totalmente diferente: ela se opõe ao poder, em nome das leis divinas ou (diríamos nós, hoje, após a peça de mesmo nome de Jean Anouilh) da consciência moral. É digno de nota que a primeira personagem da cultura ocidental a enfrentar radicalmente o poder de Estado seja uma mulher. É como dizer: ante um poder masculino, que privilegia a razão de Estado, valores autênticos são assumidos pelas mulheres.
Por que minhas alunas preferiram Antígona, meus alunos Maquiavel (claro que sempre com exceções)? Há o óbvio, o poder geralmente foi exercido pelos homens, em nosso mundo. Mulheres ficavam na vida privada. Ensinavam valores aos filhos. Os homens aprendiam que, para vencer na vida ou simplesmente sobreviver, precisavam relativizar os valores. Aprendiam que, nas horas decisivas, o realismo vencia a ética. “Sua mãe é uma santa, mas na hora do vamos-ver não dá para ser assim, meu filho”; e por isso matavam, subornavam, traíam. Coloquei os verbos no passado, mas podemos passar ao presente – o problema continua. Só que hoje homens e mulheres estão próximos; relativizar o valor, priorizar o sucesso acontece com todos; daí, a sensação desconfortante de que a ética sumiu, porque nem mais a mãe, nem mais a mulher, cuida dela.
Maquiavel mostra bem este mundo em que a regra não tem mais lugar garantido e a decisão de violá-la se toma inúmeras vezes; o que podemos aprender com ele é que a exceção à regra não é mero desregramento, mas tem sua lógica. Ele nos dá a chance de sair do moralismo hipócrita de quem vê o cisco no olho do outro e finge não enxergar a trave no seu. Já Antígona expressa a rebeldia no que tem de mais belo. O que, porém, muitos e muitas esquecem é que essa rebelde pagou um preço alto. Por ser fiel a seus ideais, foi executada. Hoje, a questão não é tanto termos rebeldes sem causa, é termos rebeldes sem custo: gente que pensa que infringir a lei se faz por capricho (não, como no caso de Antígona, com plena consciência) e que não se paga nada por isso. Corremos o risco de viver um Maquiavel e uma Antígona baratos, sem valor.

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