O assunto não é você

Alex Castro

Poucos conselhos são mais perversos e canalhas do que o popular “trate os outros como gostaria de ser tratado”.

Não é verdade. Sabe por quê? Porque o outro é um outro. Porque ele teve outra vida, outras experiências. Porque ele tem outros traumas, outras necessidades. Basicamente, porque ele não é você; porque você não é, nem nunca vai ser, nem deve ser, a medida das coisas.

Se você se usa como parâmetro para qualquer coisa, já está errado. O outro deve ser tratado não como VOCÊ gostaria de ser tratado, mas como ELE merece e precisa ser tratado.

E você pergunta:

“mas, Alex, como vou saber como o outro merece e precisa ser tratado?”

Bem, para isso, o primeiro passo é sair de si mesmo e deixar de se usar de parâmetro normativo do comportamento humano. Essa é a parte fácil. Depois, abra bem os olhos e os ouvidos. Reconheça que existe um outro e que ele é bem diferente de você.

Então, conheça-o.

* * *

A primeira coisa que aprendemos em vendas é a colocar sempre o foco no cliente. A chave para vender algo é resolver um problema ou necessidade do cliente – nem que para isso você precise criar a necessidade! Idealmente, suas frases devem girar sempre em torno do cliente: “o que posso fazer para colocá-LO em um carro novo hoje mesmo?”, etc.

Os vendedores não fazem isso à toa. Funciona mesmo. Entretanto, nas últimas décadas, a técnica se espalhou. Basta ver a capa de qualquer revista: “20 maneiras de agradar SEU homem”, “A recessão: como ela afeta o SEU emprego”, “ENTENDA a crise em Ruanda”, etc.

Esse último é especialmente traiçoeiro, por ser mais discreto. Entretanto, o efeito desse “entenda” é enorme, pois ele muda totalmente o eixo da discussão. Agora, o foco não é mais a crise em Ruanda, mas VOCÊ: o importante não é mais o sofrimento daquelas pessoas pretinhas, mas que VOCÊ entenda (superficialmente, claro) mais uma coisa para poder demonstrar aos amigos como está up-to-date com assuntos internacionais. Você, você, você. Não podemos nem mais falar sobre a crise em Ruanda sem arrastar, logo quem, VOCÊ para o meio da conversa.

A falácia, naturalmente, é que você não tem nada a ver com a crise em Ruanda.

* * *

Falando em termos da classe média ocidental, vivemos em um mundo onde os jovens pais param tudo para virar escravos dos filhos: até Mozart na barriga da mãe escutam. Depois, crescem sendo os reizinhos da casa, mandando em empregados, vendo o mundo girar a sua volta. Na TV, mil anúncios voltados pra eles. Nos mercados, mil produtos feitos especialmente para fazer crianças pentelharem os pais para comprá-los. Nas escolas, os alunos agora também avaliam os professores e exigem um bom serviço em troca das suas mensalidades. Se alfabetizam lendo as mesmas notícias acima, sobre como isso ou aquilo os afeta, sempre dando a entender que a crise em Ruanda só existe para que a entendam.

Aí, crescem e se tornam adultos que, ao invés de refletir sobre os privilégios que têm, lutam pelos que não têm; que acham que uma petição online é mais que nada; que pensam que vão salvar o mundo pelo consumo responsável, comendo atum dolphin-free e palmito não-proveniente da Mata Atlântica.

Ou seja, se tornam adultos que acham, sinceramente, do fundo do coração, que tudo gira em torno deles. Que o assunto é sempre eles.

* * *

A Ana Maria Gonçalves, autora de Um Defeito de Cor, escreveu um texto belíssimo sobre a polêmica em torno da obra de Monteiro Lobato. O que a Ana percebeu foi o seguinte: uma discussão que deveria ser sobre educação e educadores, dinâmica de sala de aula e cognição infantil, racismo e preconceito, acabava sempre caindo no eu, eu, eu. Enquanto, de um lado, professores estavam falando sobre os alunos e sua capacidade de aprendizado, e como poderiam se sentir alunos negros lendo livros sobre “pretas beiçudas”, grande parte dos argumentos do outro lado eram coisas como:

“Monteiro Lobato foi um autores favoritos da MINHA infância”, “EU li esses livros quando era criança e não SOU racista”, etc.

Estavam pensando não nos efeitos do livro sobre as crianças que vão lê-lo no futuro (o que, afinal, é a questão em debate) mas sim defendendo a pureza de sua própria infância, como se dissessem

“se um livro que foi parte tão integrante e tão linda da minha vida é assim tão racista, que outras coisas pra mim tão naturais eu também vou ter que questionar?”

Em resposta a isso, Ana escreveu o texto brilhante cujo título já diz tudo: “Não É Sobre Você Que Deveríamos Falar“.

Isso sempre acontece, não?

* * *

Fala-se de racismo, e lá vem: “mas tenho amigos negros”, “já namorei uma negra”, “chamo meu amigo de Sombra e Grafite e ele nunca se importou”.

Só que sua opinião, seus amigos, suas namoradas, tudo isso é irrelevante, entende? O racismo é maior que você, já existia antes, vai continuar existindo depois. Essa discussão tem que se dar no nível da história e da sociologia, dos indicadores econômicos e das injustiças contemporâneas. Quando muito, talvez, da experiência pessoal dos negros que sofrem a discriminação, mas mesmo esta é altamente subjetiva, pois o preconceito também é introjetado pela própria comunidade. Mas, com certeza, não da sua experiência pessoal.

O assunto não é você.

* * *

Fala-se de aquecimento global, e lá vem: “mas esse ano teve uma tempestade de neve na minha cidade”.

Só que as nevascas na sua cidade são incidentais e anedóticas, entende? Eu mesmo não tenho opinião sobre aquecimento global, mas ele vai ser provado ou refutado por meio de gráficos climáticos globais sobre oscilações de temperatura ao longos dos séculos – e não pela quantidade de neve bloqueando seu carro no inverno passado.

O assunto não é você.

* * *

Fala-se de feminismo, e lá vem: “essas feministas são muito histéricas, eu jamais me incomodaria da minha chefa passar a mão na minha bunda”, “minha mãe foi dona-de-casa a vida inteira e muito feliz”.

Mas você não é mulher, entende? As mulheres ganham menos, sofrem mais violência doméstica, são estupradas, morrem em abortos clandestinos – todos fenômenos com métricas facilmente encontráveis. A discussão tem que dar através desses números. As coisas que você faria ou sentiria se estivesse no lugar delas são irrelevantes, pois você não está e nem nunca estará no lugar delas.

O assunto não é você.

* * *

Fala-se de direitos dos homossexuais, e lá vem: “não tenho nada contra mas acho que essas paradas gays me incomodam e só estigmatizam o movimento”, “minha religião diz que é pecado”, “se dois gays se beijarem em público, como vou explicar isso ao meu filho?”

Mas sua religião, sua opinião, seu incômodo, seu filho, isso tudo é irrelevante, entende? Outros cidadãos têm outras religiões, outras opiniões, outros filhos – e têm os mesmos direitos que você. Se as manifestações gays lhe incomodam, resolva o problema na terapia ou no templo. Você não saber como explicar ao seu filho um fenômeno humano ancestral como a homossexualidade não é justificativa para proibir alguém de viver seu amor.

O assunto não é você.

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12 thoughts on “O assunto não é você

  1. Texto bem amarrado e bem escrito. Concordo em parte no que escreveu, mas confesso que tenho um receio sobre verdades absolutas e em alguns casos seu texto deixa essas impressões.. Não sei até que ponto é correto impor ou dividir julgamentos. Uma sociedade mais justa se faz com igualdade.

  2. O texto é bom, pois serve para muitos refletirem sobre o individualismo/personalismo, que gera a ignorância e o preconceito.

    Ao mesmo tempo, também serve para as feministas que dizem coisas do tipo “O CORPO É MEU!”, ou “se ser vadia é ser livre, então SOMOS TODAS vadias”; que desrespeitam a crença de católicos ao quebrarem imagens sagradas (importantes para eles) porque ELAS NÃO PENSAM ASSIM.

    Esta lógica também valeria para os homossexuais e para os heterossexuais que expõem exacerbadamente suas sexualidades em paradas ou bailes pensando “TENHO orgulho de ser hétero/gay”.

    Não sou gay, nem mulher, nem católico, mas tenho respeito pelo que eles acreditam, apesar de não concordar com a prática (leia-se “prática”, não “legalização”) do aborto – por exemplo.

    Enfim, qualquer imposição de opiniões, qualquer personalismo é totalmente reprovável, justamente porque faz com que opiniões alheias não sejam respeitadas. O individualismo e o orgulho que alimentam o preconceito dos fanáticos são os mesmos que alimentam a arrogância dos adeptos da chamada “diversidade”.

  3. Minha opinião é importante sim, bem como a de cada um, apesar do assunto não ser eu. Não sou contra os homossexuais, desde que não se entreguem aos prazeres da carne. O fato de serem homossexuais é uma expiação. Pediram para vir nesta condição com a única missão de praticar a caridade com o seu próximo e não aos prazeres e devaneios sexuais. Os homossexuais devem ser alertados/avisados sobre isto. Igualmente são nossos irmãos e merecem o nosso respeito.

  4. Muito bom o texto, mas concordo que temos que ter um pouco de receio com a verdade absoluta. Se eu não posso ter uma opinião porque o assunto não é eu, aquele que é o assunto também não pode advogar o direito de opinião. Daí vamos ficar todos, um olhando para o outro sem trocar ideias e cairemos no deserto árido da estagnação do pensamento.

  5. O texto é realmente muito bom, podemos substituir o “trate os outros como você gostaria de ser tratado” pelo “se coloque no lugar do outro”. Os exemplos que o texto traz são muito reais, um verdadeiro tapa na cara… Senti falta apenas de uma conclusão do raciocínio: não necessariamente um desfecho, mas quem sabe um questionamento final ou mesmo um encerramento para tudo que foi dito.

  6. vi muita gente falando que, por não poder se inserir no argumento, não poderá opinar.
    colega, se voce só consegue opinar dizendo ‘eu, eu, eu’, nunca deve ter escrito uma dissertação. o que o Alex quer dizer é que o assunto não se limita a você, e não é porque VOCÊ nao é homofóbico que o mundo não é, não é porque VOCÊ sente frio que o mundo não está aquecendo.
    quer opinar? simples, baseie seus argumentos em fatos, em dados, em estudos, e não em mini-experiências-pessoais-importantíssimas da sua vida, que não interessam a ninguém além de você.

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