Memorial de leitura de Israel

O objetivo deste texto é mostrar de que maneira a leitura se tornou parte essencial de minha vida. Começo com uma citação de Descartes, na qual consta: “a leitura de todos os bons livros é qual uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversação premeditada, na qual eles nos revelam tão somente os melhores de seus pensamentos[1]”. Esse excerto é representação adequada da importância da leitura para mim, pois, como ler é um processo de decodificação, compreensão e assimilação mental de uma mensagem, devido à minha tentativa de escolher, à moda de Descartes, precisamente os livros que se destacaram em cada século, a leitura se torna a absorção de movimentos de pensamento de alta qualidade. Assim, em tese, eu posso viver uma vida menos dura.

A forma como esse processo é realizado foi mudando com o tempo, dependendo da fase da formação escolar em que eu me encontrava. Durante a educação básica, não havia tanta escolha de minha parte. Para atingir a habilidade necessária para encarar textos mais complexos, era preciso passar por alfabetização e, depois, por um refinamento desse saber recém-adquirido. O processo se dava de forma artesanal e repetitiva, consistindo predominantemente de três práticas. Uma delas era responder a questões, procurando em textos, figuras, símbolos e qualquer outro meio de passar a mensagem, escolhido pelos educadores,  a parte da mensagem que serviria como resolução da pergunta realizada. Outra era responder a perguntas cujas respostas pressupunham o uso, não de um texto específico, mas de todo o conhecimento adquirido até ali. Por último, tendo os meus professores, em geral, a ideia de que ler e escrever são dois lados de uma mesma moeda, havia a prática ocasional da escrita, em avaliações de redação nas quais se deveria usar todo o conhecimento de mundo que se tinha. Fora da escola, eu lia aquilo que os meus critérios incipientes de jovem leitor apontavam como de boa qualidade e que estavam disponíveis por um bom preço.

No ensino superior, ocorreu um intenso refinamento generalizado. Fui exposto a uma série de métodos de leitura, que me mostraram que é possível realizar de várias maneiras as etapas do processo de ler. O método específico do curso de Filosofia, o estruturalista, foi o que mais me chamou a atenção. Havia nele especificidade e uma intensa apologia ao rigor e à precisão que não vi nos outros. Ele também apresenta a pretensão de suprimir a influência da ideologia do leitor, de maneira que este recebesse as ideologias do texto sem julgá-las positiva ou negativamente no momento do recebimento. Isso se dá de duas formas. Primeiro, incentiva-se o leitor a adotar uma postura neutra diante do texto. Eis o que afirmam Folscheid e Wunenburger:

Para ler realmente um texto, devemos nos colocar ingenuamente diante dele, sem preconceitos de nenhuma espécie, sem expectativas, sem saberes prévios – ou lembranças de saber.

Disso resulta que é necessário afastar o que se sabe para se contentar com o que se lê. Caso contrário, você não enxerga. Sobretudo, não enxerga aquelas evidências maciças que, como bem diz a expressão consagrada, “saltam aos olhos”[2].

Depois, entra em ação o método estruturalista propriamente dito, desenvolvido na França do século XX por Victor Goldschmidt e Martial Guérrout, e que me foi apresentado como aquele que permite uma real objetividade na leitura dos sistemas filosóficos, a salvo das distorções que frequentemente vêm com a interpretação pura e simples. Sobre isso, diz Porchat:

Objetividade que consiste na reconstituição explícita do movimento de pensamento do autor, refazendo seus mesmos caminhos de argumentação e descoberta, segundo seus diversos níveis, respeitando todas as suas articulações estruturais, reescrevendo, por assim dizer, segundo a ordem das razões, a sua obra, sem nada ajuntar, entretanto, que o filósofo não pudesse e devesse assumir explicitamente como seu. E sem esquecer um só instante que “as asserções de um sistema não podem ter causas, ao mesmo tempo próximas e adequadas, senão razões. E razões conhecidas do filósofo e alegadas por ele”[3].

O estruturalismo filosófico também exige que se façam protocolos de leitura, que consistem em anotar, sobre cada parágrafo lido, qual o seu tema, a tese, e os passos argumentativos usados para justificá-la. Isso evita anacronismos e outras distorções. Depois, faz-se um esquema sobre o todo do texto.

De um lado, pôr em prática todas essas exigências é minha principal dificuldade no ensino superior. Muitas vezes, nenhum conceito prende imediatamente o olhar; nenhuma tese parece se destacar. É difícil pôr o dedo na tese e separá-la dos movimentos argumentativos que lhe dão sentido, o que faz a produção e organização de artigos sobre os autores lidos uma tarefa árdua. Conforme os semestres passam, ler se torna uma tarefa cada vez mais vagarosa.

Também é difícil concretizar o outro lado da moeda, a escrita. Há sempre grande medo em deixar um dos passos argumentativos dos autores de fora, sob pena de a ideia exposta não ficar clara e do texto final parecer uma colcha de retalhos. No entanto, um cuidado excessivo com a exposição do autor pode tornar o texto prolixo e carente de objetividade.

De outro lado, as especificidades da leitura filosófica muitas vezes me dão facilidade em identificar conceitos nos discursos alheios, nos diálogos de pessoas e personagens, nos textos e mesmo em pesquisas científicas, me permitindo absorvê-las em minha vida ou rejeitá-las. Isso porque as mensagens presentes nos textos filosóficos são totalmente redutíveis a um pensamento racionalmente conduzido, que se move apenas no domínio conceitual. Assim, nas pesquisas científicas, um dos conhecimentos mais valorizados hoje, é possível separar o que são fatos das interpretações sobre eles.

Por lidar com obras de todos os séculos, tenho de encarar estilos de escrita muito diferentes do exigido hoje. Isso causa um grande estranhamento. Há textos extremamente herméticos, como a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, que mesmo estando em português, exigem quase o mesmo trabalho que ler um texto em outra língua. Os livros e artigos sobre fenomenologia são os que mais me causam deslumbramento e dificuldade.

As leituras com que mais me identifiquei foram os textos nos quais permeava um tom analítico, em especial os de ceticismo ou aqueles com um quê cético, como O discurso do método de Descartes. Eles propõem a análise e remoção da maior parte das crenças de um indivíduo, o que é ótimo para limpar muitos preconceitos, crenças absorvidas sem pensar, injunções, amores a ideias por mera tradição e a manutenção apenas de poucas ideias necessárias à vida, e mesmo estas não sendo fixas e podendo sempre mudar. A postura investigativa do ceticismo também previne à adesão a ideias que pareçam mais convincentes de início, fazendo com que o aprendiz de cético deixe seu juízo suspenso por quanto tempo for necessário até que decida se aquela noção vale alguma coisa ou não.

Outro exemplo é Problemas de Gênero, de Judith Butler, que me mostrou que os papéis supostamente fixos de homem e mulher são, na verdade, construídos culturalmente, e que a dose de escolha do indivíduo sobre até que ponto segui-los é muito maior do que o que se supõe. Mais um estudo que fez bastante diferença na minha formação foi o estudo de filosofia da linguagem, que mostrou a dose de preconceitos e ideias que entram no indivíduo simplesmente por aprender linguagem, e como a língua é racista, machista, homofóbica e tem intrínsecas várias outras ideias de má qualidade. A descoberta desses estudos melhora minha relação com as pessoas.

Com efeito, é pelos motivos citados anteriormente, a saber, o contato com os melhores pensamentos das pessoas mais qualificadas da história, a alta absorção conceitual que o método estruturalista proporciona, e o teor analítico sobre o mundo, as sociedades e os indivíduos em geral, é que considero a leitura importante no meu ensino superior, porque quem sai de um curso de humanas tem grandes chances de ser um formador de opinião e é preciso entender muito bem como elas funcionam para não ajudar a formar opiniões dogmáticas, mal pensadas, preconceituosas.

Minhas leituras habituais são os livros da faculdade, livros de literatura e colunas de jornal que considero interessantes, como a de Eliane Brum. Além de alguns blogues de pessoas cujas ideias aprecio. Já a minha família lê pouco ou nada. Meu pai não lê; minha mãe e irmãos leram na escola e o livro de bobagens Ágape, do Padre Marcelo Rossi, lançado em 2010.

BIBLIOGRAFIA

DESCARTES, René, Discurso do método,  tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Jr, in  Descartes I, São Paulo, Nova Cultural, coleção Os Pensadores, 4ª edição, 1987.

FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica, tradução de Paulo Neves, São Paulo, Martins Fontes, 3.ª Edição, 2006.

GOLDSCHMIDT, Victor. A religião de Platão, prefácio introdutório de O. Porchat, tradução de IEDA e O. Porchat, São Paulo, Divisão Europeia do Livro, 2.ª Edição, 1970.


[1] DESCARTES, René, Discurso do método,  tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Jr, in  Descartes I, São Paulo,

Nova Cultural, coleção Os Pensadores, 4ª edição, 1987.

[2] FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica, tradução de Paulo Neves, São Paulo, Martins Fontes, 3.ª Edição, 2006.

[3] GOLDSCHMIDT, Victor. A religião de Platão, prefácio introdutório de O. Porchat, tradução de IEDA e O. Porchat, São Paulo, Divisão Europeia do Livro, 2.ª Edição, 1970.

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