Memorial de Anderson

Anderson Luis de Souza Silva

Meu objeto é mostrar, neste memorial, o quanto a leitura foi, é e será, até o fim de meus dias, parte fundamental de minha vida. Poeticamente falando, a leitura, para mim, é libertação, ou melhor, é libertar-se da vida, que é uma prisão da qual só quem lê consegue fugir. Fugir não: sair honestamente, cabeça erguida, pela porta da frente, sem dever nada a ninguém. Em um sentido objetivo, a leitura, creio, é a capacidade que o ser humano tem de decodificar o mundo. Aqui não se trata, é claro, apenas de decodificar um amontoado de palavras postas em um pedaço de papel, mas sim de decodificar tudo que está a nosso redor, tudo o que vemos e o que não vemos. A leitura é interior e exterior: lemos tudo que nos cerca e tudo que se passa dentro de nós.

 
Em minha família nunca houve, infelizmente, o hábito da leitura. Cresci em uma casa onde pouco ou quase nada se lia. Era, em meu lar, a televisão a grande “estrela”. Todas as noites reuniam-se os meus a fim de assistir a ela. E os livros, esses serviriam apenas de enfeite à estante, se não fosse o fato de eu cuidar deles, desde minha infância até hoje. Tento, de alguma forma, incutir em meus familiares o amor da leitura. No entanto, forçoso é confessar ser isso um trabalho cujo resultado é de todo nulo.

 
Agora, infelizmente ou felizmente, não posso medir qual foi a importância da leitura em minha vida escolar porque, devido a vários problemas de saúde, não tive vida escolar. Frequentei o ensino fundamental por cerca de cinco anos, dos quais não me lembro de quase nada. Minto! Não me lembro de nada. Assim sendo, pulando “amarelinha”, pulemos essa triste parte de minha infância… Ensino médio não frequentei. (Valha-me Deus! Este memorial já começa a ganhar feição de tragédia! Todavia, não deixes de lê-lo, por favor; enxuga as lágrimas, pessoa comovida: neste texto, ainda lerás histórias felizes, prometo-te.) Isso, o fato de eu não ter frequentado ensino médio, implica dizer que, antes de chegar à universidade, eu nunca havia tido uma única aula de Literatura e que toda a minha formação como leitor foi feita por mim mesmo. Mas não sejas leviano, frascário: não vás deduzir daí que não estudei. Muito pelo contrário, li boa parte dos clássicos da língua portuguesa, sobretudo os livros de Machado de Assis. Este escritor, aliás, foi o melhor professor de Literatura e de Língua Portuguesa que tive. Todavia, não foi Machado quem me transmitiu o amor da leitura: foi a Moça do Recife, Clarice Lispector. Tudo começou quando, por conta própria, uma vez que já disse não haver tido vida escolar, eu estudava um livro de gramática e, nele, deparou-se-me um conto de Clarice intitulado Felicidade Clandestina: foi amor à primeira vista. Desde esse dia, passei a amar as literaturas brasileira e portuguesa, mesmo sem nunca haver tido uma única aula de Literatura, donde concluo (e aqui peço perdão aos professores) que a melhor forma de se apaixonar pela leitura é não tendo aula de Literatura.

 
Sem dúvida, foi com a leitura das obras de Machado de Assis que mais me identifiquei. Se Clarice Lispector foi minha “Marcela”, o primeiro amor de Brás Cubas, os livros do Bruxo do Cosme Velho foram minha “Virgília”, o amor de Brás Cubas em sua maturidade. E por que me identifiquei tanto com Machado de Assis? Decerto, algumas das razões principais foram: o fato de, qual ele, eu ter estudado por conta própria; qual ele, nunca eu ter permitido que, apesar dos golpes da Fortuna, me tratassem por coitadinho; qual ele, eu ter invertido situações que me eram completamente desfavoráveis.

 
Quando comecei a me tornar um machadiano compulsivo (esta é a melhor definição) tive dificuldades em assimilar a ironia contida nos textos de Machado de Assis. Sim, porque sua ironia é, as mais das vezes, sutil, de modo que exige do leitor um alto grau de sensibilidade para percebê-la. Também a linguagem utilizada por ele era-me, a princípio, sobremodo difícil de assimilar. Eu dizia: “Meu Deus, o que este homem está dizendo?” Mas, após muita insistência, percebi que aquela linguagem não era tão complicada: era, na verdade, simples para quem conhece as estruturas de nosso idioma. E, para dizer tudo, era a língua literária brasileira atingindo seu ápice na pena de um rapaz que se fez por si, que entrou onde não queriam que ele entrasse: na história deste país.

 
Do modo que este texto se vai apresentando, provavelmente suporá o leitor que minhas leituras se resumem aos livros de Machado de Assis. E suporá mal, pois minhas leituras começam nas cantigas trovadorescas, sobretudo as de Dom Dinis, e terminam nos autores contemporâneos, entre os quais destaco José Saramago, cujos livros (principalmente o Ensaio Sobre a Cegueira) contribuíram sobremodo para minha formação como leitor. A propósito, foram as obras de Saramago que me causaram os maiores estranhamentos, pois, ao começar a lê-las, deparou-se-me um estilo de escrita com o qual não estava acostumado. Vi que o escritor português quase nunca empregava o ponto, os dois-pontos, o ponto e vírgula, o travessão para indicar o diálogo entre as personagens, enfim, vi que ele adotava uma forma de escrever que fugia completamente ao convencional. Foi-me, por isso, num primeiro momento, sofrível ler, por exemplo, o Ensaio Sobre a Cegueira; neste livro, quase Saramago me tira todo o fôlego com seus períodos intermináveis. A princípio, não entendia qual era a intenção do autor. Mas depois percebi (e isto levou-me a ter uma das mais gloriosas experiências que já tive numa leitura) que José Saramago queria que o leitor não lesse o livro, mas sofresse o livro. E a forma que ele encontrou para fazer isto foi adotar uma maneira de escrever que obrigasse o leitor a ficar com o rosto colado no livro, prestando o máximo de atenção àquilo que lia, sob pena de não conseguir entender nada.

 
Também me dediquei a ler Camões. Sou apaixonado pel’Os Lusíadas. Li este livro como uma criança em uma loja de doces ou de brinquedos. Pessoa, cujos poemas jamais me saem da cabeça, foi meu companheiro durante uma das piores fases de minha vida. Quando eu me perguntava se valia a pena insistir, se valia a pena lutar, logo me vinham à mente as palavras do poeta: “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”. Isso também me diz Pessoa sempre que penso em desistir das Letras. O curioso é que o próprio Fernando Pessoa abandonou o curso de Letras, mas é porque ele deve ter meditado que valia pela abandoná-lo. Mário de Sá-Carneiro, que deu “azar” de ter sido contemporâneo de Pessoa, é outro poeta português que me encanta. Seu poema Quase parece um relato de minha vida, pois sempre me parece falar um golpe de asa para terminar o que comecei.

 
Agora, saiamos de Portugal, leitor; entremos numa caravela e vamos para o Brasil, para que eu te conte, neste memorial, quem, além dos escritores brasileiros já citados, são meus amigos… Ei-los: a Sr.ª Cecília Meireles, que me ensinou que, neste mundo, não é preciso ser feliz nem triste: basta ser poeta; o Sr. Mário Quintana com sua poesia doce; o Sr. Carlos Drummond, cuja pedra ainda está no meio de meu caminho, o Sr. Manuel Bandeira, com quem viajei para Paságarda; o Sr. Castro Alves, que me fez chorar dentro do navio negreiro; o Sr. Aluísio Azevedo, cujos livros atirei à parede, de raiva por causa da hipocrisia dos seres humanos; o Sr. Olavo Bilac: quando tempestades destruíram meus campos, só me restou a última flor do Lácio; o Sr. José Lins do Rego, cujo fogo morto acendeu ainda mais meu amor da leitura; o Sr. João Cabral de Melo Neto, que me alcunhou Severino; o Sr. Érico Veríssimo, que me ensinou a olhar os lírios do campo; o Sr. Graciliano Ramos, que tentou tornar a minha vida ainda mais seca. Enfim, são tantos amigos… Muitos outros há, mas, se for citá-los todos aqui, dar-lhe-ei um livro.

 
“É preciso ler tudo tudo, absolutamente tudo!”, bradava, na década de 1920, em tom de desespero, o poeta Carlos Drummond de Andrade. O poeta sabia a importância de leitura na formação de sociedade brasileira. Sabia que a falta dela causaria um desastre ao país. O poeta talvez não fosse profeta, mas antevia o futuro do Brasil sem leitura. “É preciso ler tudo, absolutamente tudo!”, essas palavras jamais me saem da cabeça. Por isso, não obstante eu sempre ter preferido a literatura lusófona, procuro ler tudo que me chega às mãos: desde livros de autoajuda até literatura estrangeira. Não que eu goste de qualquer gênero de texto, mas a necessidade e as palavras do poeta me obrigam a ler tudo. Todavia, é-me forçoso confessar (e, no parágrafo acima, isso ficou bem claro) que o gênero literário de que mais gosto é o romance, seguido de perto pela poesia. Metade de mim é prosa, metade é verso. E, para ser mais preciso, minha paixão são os romances realistas de Machado de Assis, sem me esquecer de citar os de outro grande escritor realista, Aluísio Azevedo, cujos livros também me encantam.

 
Leio muito gramáticas normativas. Não digo que elas me ensinaram a escrever; digo apenas que me ensinaram a identificar e classificar as partes de um texto, de modo que eu soubesse pontuar corretamente meus escritos; ensinaram-me também a ortografia. Não há porque eu negar que sou apaixonado pela gramática normativa. Tenho várias e as estudo diariamente. Confesso que, antes de chegar ao curso de Letras –– aliás, antes de ter contato com linguistas como Mario Perini, Ataliba de Castilho, o que fiz bem antes de entrar na universidade ––, eu tinha uma visão bem restrita da língua portuguesa: achava que a língua se resumia àquilo que prescrevem as gramáticas normativas. Os linguistas a que me referi, porém, ampliaram-me os horizontes no tocante à nossa língua, razão por que os incluo neste memorial entre as leituras que marcaram minha vida. Eles preparam o caminho para eu chegar às Letras. Aí, apesar de até o momento só haver tido um semestre de aulas, pude ampliar sobremodo meu leque de leitura, ter contato com textos cujos gêneros são totalmente diferentes daqueles como os quais me acostumara. E, a princípio, isso me foi difícil de assimilar: não é nada fácil para quem só tivera contato com textos literários de repente se ver diante de textos acadêmicos, cheios de regras, cheios de normas, cheios de “não me toques”. E por que hei de negar que ainda não consigo digerir tais tipos de texto? Sim, para mim ainda são difíceis de ler e, obviamente, de entender.

 
Não posso terminar este memorial sem citar um livro que me acompanha desde quando eu era um menino: a Bíblia. Como fui criado em uma família cristã protestante, sempre esse livro esteve presente em minha vida. Comecei a lê-lo ainda criança, nas escolas dominicais de eu participava na Igreja Metodista. Foi aí que me transmitiram o amor pela Escritura. Amor que tenho até hoje: leio a Bíblia todos os dias, não obstante já tê-la lido, capa a capa, três vezes. É um livro que, definitivamente, é parte de mim. Por isso, faço questão de mencioná-lo aqui não como uma leitura que marcou a minha vida, mas sim como a leitura que marcou minha vida.

 
Por fim, ressalto que foi importante, para mim, escrever este memorial, pois pude trazer à memória parte de minha vida de leitor, E, com essa retomada, poderei organizar melhor minha vida acadêmica, poderei analisar os erros e acertos que cometi em minhas leituras, de modo que eu possa fazer uma reflexão mais acurada sempre que tiver de ler um texto acadêmico ou de qualquer outro gênero.

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