Contrastes

Lucinha estava na poltrona do cinema, esperando o filme começar, quando, de repente, no assento ao lado, uma idosa desmaiou. Na verdade, a senhora havia morrido, como Lúcia saberia alguns minutos mais tarde, depois que o socorrista terminasse o exame.  Havia sofrido um enfarto fulminante e morrido assim, rapidamente, como quem desmaiasse.

A idosa foi levada dali para o IML e a sessão foi retomada. Quando o filme começou, a jovem refletia sobre a ironia da situação. Estava ali para ver uma história sobre a adoção de duas crianças por um casal de lésbicas, sobre o início da vida, e, abruptamente, alguém morre.

Mais tarde, já em casa, viu o noticiário falar da mulher que morrera na sessão de cinema. Tinha 90 anos, morava sozinha e gozava de boa saúde. Era a hora dela, dizia um sobrinho a quem o entrevistava. Lúcia se interessou pela recém-falecida. Com idade tão avançada, vivia sozinha e ainda ia ao cinema, uma demonstração de autonomia e de vida ativa. Também sugeria personalidade. Seria ela viúva e, com a morte do marido, não quis ir morar com um dos filhos? Teria sido casada, para começar?

Por ser seu namorado um jornalista, Lúcia aprendeu com a convivência algumas noções de abordagem de pessoas. Após recorrer a ele para descobrir o endereço do sobrinho, foi até lá. Seu nome era Irene. Descobriu que a idosa era cheia de vida e muito corajosa. Jamais havia se casado, por exemplo. Vivia seus romances quando desejava, quando alguém, em sua vida, em seu trabalho, lhe chamava a atenção. Recusava casamentos, pois eles impunham uma burocracia jurídica grande demais para o seu gosto. Preferia namoros e os conservava pelo tempo que achasse que valiam a pena. Quando acabava o interesse, quando a convivência com o outro adquiria um tom de tédio, em vez do que quer que a tivesse atraído naquela pessoa, ela encerrava o contato.

Perguntou ao sobrinho se alguém já havia morado com a tia, apesar de não casarem. Ele não soube dizer. Os familiares viam esta autossuficiência como fachada para a libertinagem e, por isso, a senhora vivia a uma certa distância. A família não interagia muito com ela. Desejava moldá-la, que ela casasse, já que era assim que a vida funcionava.

Os parentes não queriam que Irene morresse sozinha devido a alguma situação que não causaria morte se alguém estivesse lá para socorrê-la. Para evitar situações de desamparo como essa, precisava de um porto seguro, de alguém que estivesse presente rotineiramente. Tanto ela, quanto o marido hipotético desejado pela família, precisavam de filhos, pois, com a idade, as coisas ficam mais difíceis.

Irene considerava tudo aquilo uma covardia. Esse casamento por conveniência, esse medo do que aconteceria quando ela morresse, eram apequenadores de pessoas. Elas gastavam tempo demais buscando aplainar as asperezas da vida, em vez de aprender a lidar com elas. Muitas vezes era preciso conviver, não consertar.

Que importa se ela morreria sozinha? Já estaria morta mesmo. Questões vãs. Lúcia se surpreendia com a concentração de características desprezadas pela sociedade em uma só pessoa. A velhinha, que pareceu tão frágil e fraca ao desabar para o fim ao seu lado, no cinema, se revelava, cada vez mais, precisamente o contrário.

O sobrinho conta que, uma vez, ao encontrar a tia na cozinha, em uma das poucas ocasiões em que ela visitava a mãe dele, lhe perguntou por que ela se isolava. Ela respondeu que eram as pessoas que se afastavam dela, não o contrário. Que as pessoas se irritam com aqueles que adotam padrões de vida muito individuais, por em geral se sentirem humilhadas, reduzidas a seres comuns, com o tratamento especial que pessoas como ela davam a si mesmas.

Assim, ela vivia sua bissexualidade, seu não-desejo por filhos ou casamento, seu interesse por viver o momento, planejando apenas o suficiente para a manutenção dessa espontaneidade. Depois de comprar sua casa e poupar mensalmente uma quantidade determinada para se manter, se dedicava a si mesma, ao que gostava e filho e casamento seriam um entrave ao seu modo de viver. Essa mera fidelidade a si mesma fazia aqueles que não tinham tal atitude por medo da sociedade, da carência ou da solidão a detestarem. Queriam que ela se conformasse como eles, pois a visão de sua felicidade diferente era um acinte diário.

Esse pequeno contato mais particular com sua tia fez o sobrinho se dar conta do quão imerso estava na versão da história contada por sua mãe e pelos outros familiares que eram como a mãe e, por isso, estavam por ali com mais frequência. Até absorveu um pouco da rebeldia e decidiu fazer Direito, e não engenharia como seus irmãos e seu pai fizeram e esperavam que ele fizesse. Não que ele fosse se tornar tão imune às reprovações da família e dos outros como sua tia, mas uma pequena dose de drama não deveria impedi-lo de seguir seus sonhos. Ele queria fazer mais pela sociedade que prédios e máquinas, e viu no Direito uma profissão que reunia o dinheiro que a família queria que ele ganhasse e a esfera social na qual ele sempre esteve interessado.

Lúcia deixou a casa da família da senhora profundamente impressionada. Viu-se pensando no impacto que alguém pode ter apenas por existir de uma forma diferente. Especialmente nas fraturas expostas nos comportamentos daqueles que mais criticam os que vivem essa diferença. Os parentes de Irene estavam supostamente preocupados com as consequências pragmáticas de sua solidão, mas foram os primeiros a se afastar. Lúcia não pôde deixar de pensar que a família parecia mais interessada em moldar Irene aos valores que consideravam corretos que com o bem-estar desta.

A vida da idosa também encontrava eco nas profundezas de Lúcia. Há muito tempo achava que a relação com o namorado estava desgastada, mas não só havia se acostumado a ele, como também sempre que expressava o sentimento de desgaste, o ouvinte lhe dizia que era assim mesmo, que em qualquer relação, por melhor que seja a pessoa com quem se relacione, acontece isso. Depois de conhecer a história de Irene, passou a refletir se esses indivíduos, sempre “bem-intencionados”, assim, com muitas aspas mesmo, constituíam uma cola que mantinha presas, umas às outras, pessoas que já não queriam estar juntas.

Uma frase do sobrinho, sobre a vida de Irene, pulsava em sua mente: “quando a convivência com o outro adquiria um tom de tédio, em vez do que quer que a tivesse atraído naquela pessoa, ela encerrava o contato”. Imediatamente, se perguntou por que queria largar o namorado e se ele ainda tinha as características que a atraíram. Não que ele não pudesse mudar, já que ela não namora um fóssil, e sim se, manifestadas em atitudes diferentes, havia nele a coragem, a diligência, e a paixão pela vida que outrora a atraíram.

Havia uma bola de neve reflexiva em sua cabeça. Ao pensar em começo, constatou que, lá, ela viu nele um ser livre, que se tornou presente porque havia nele características que ela admirava naquele momento, físicas e mentais. Muitas vezes, o tempo leva essas características do início e só sobram os rótulos de namorado e namorada que surgiram depois. Aí entra a cola, que os manteria juntos sempre que essa sensação estranha, causada pelo sumiço dos aspectos atraentes no outro, resolvesse incomodar.

Ao chegar a casa, o namorado a esperava na porta. Tinha tocado a campainha, supondo que a amada já tivesse chegado. Disse estar muito interessado em como foi à visita à família da idosa, mas que primeiro havia uma revelação importante. Lúcia nem quis ouvir e anunciou o término do namoro. Ela não queria ser um cliché ambulante, mas percebeu que já o era. E decidiu fazer o que queria há muito tempo, mas nunca o fez. Percebeu, no caminho, que ele já não era o homem que ela admirava no começo e também se viu pensando que não sabe mais o que esperar da vida. Nesse contexto, queria um tempo para si mesma, e a revelação do namorado não mais a interessava.

Ele surtou. Perguntou o motivo, gritou de frustração. Mostrou a ela que a revelação era uma aliança de casamento. Ele achava que era hora de ambos passarem a morar juntos, oficializarem a união, receber benefícios do governo, ter filhos… Mas ela foi inflexível. Por mais que o amasse, será que o amava mesmo, uma vez que desejou o fim do relacionamento tantas vezes?, ela não podia pensar em fortalecer aquela união. Se já seria difícil a separação naquele momento, seria muito pior depois de casada, morando junto, tendo perdido o tutano da juventude e a prática de morar sozinha. Se havia um momento de se livrar dessa vida pasteurizada, e pelo menos tentar uma melhor, era agora.

O namorado exigia motivos. Ambos ali, na porta da casa dela. Em outra ocasião, teriam entrado, conversado, tido uma noite vista como noite romântica aos olhos de muita gente. Mas não podia entrar em casa hoje. A notícia que estava dando a ele era pesada demais, especialmente porque ela não tinha em mente uma justificação elaborada. Então, queria anunciar sua decisão ali mesmo, na rua, sob a possibilidade de estarem sendo observados, motivo pelo qual haveria ao menos o mínimo de autocontrole da parte dele, ainda que inconscientemente. Em último caso, a céu aberto era mais fácil fugir.

Ela disse que não o amava mais e que isso era suficiente. Ele se calou, ficou vermelho de ódio, de frustração, de ansiedade. Não acreditava na situação. Estava perplexo e paralisado. Ela não sabia se não o amava mesmo, mas diante de um homem disposto a casar, ela não podia manifestar toda a complexidade de sua mente. Era melhor se livrar dele naquele momento, quando o conhecimento da vida dessa mulher e a morte dela a chocaram o bastante para sair da inércia. Continuar naquilo podia lhe render um casamento e, chocada com a sua sinceridade interna, aquilo lhe parecia um pesadelo.

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