Não será o mesmo

“Não sei se depois disso conseguirei continuar minha relação com fulano. As coisas não serão as mesmas”. Variações dessa máxima percorrem frequentemente as bocas e os corações de inúmeras pessoas  mundo afora. À ideia de que um fato X mudou permanentemente a dinâmica de uma interação e que, por isso, esta não poderá mais existir falta maturidade.

Confiança, dependência, medo são os motivos usados pra sustentar a ideia de que uma traição ou um comportamento inesperado de alguém impedem a continuidade do contato com essa pessoa. No caso de um relacionamento amoroso, a pessoa fica incapaz de confiar na fidelidade do outro e, por isso, a relação se torna insustentável,  o que leva ao seu fim. O traído, ao antever essa suposta insustentabilidade, anuncia o fim por antecipação. “Melhor encerrar agora, que doerá menos.” Por trás dessa decisão, porém, longe de cautela e bom senso, há muita desinformação e covardia.

“(..)existir consiste em mudar, mudar, em amadurecer, amadurecer, em criar-se indefinidamente a si mesmo.”, diz Bergson. Sendo assim, uma suposta inabilidade de manter uma relação porque esta não se manteve à altura de suas expectativas é ingenuidade.  Diferente da interação com um produto que se compra, tendo este sido adquirido para cumprir uma função, ao começar uma relação não comercial não existe uma função definida. Existem expectativas que podem ou não se cumprir. Cabe a quem embarca nessa lidar adequadamente com elas.

Sendo o homem um ser de mudança, uma relação de equilíbrio entre dois deles precisa incluir essa característica na dinâmica do jogo. Consequentemente, quando diante de algo inesperado, ao invés de se isolar o autor dessa surpresa, se ajustem as expectativas que se tinha deste à realidade.  Expectativa é  a situação de quem espera a incidência de um evento baseado em sua probabilidade de ocorrência e, sendo assim, não é certeza de nada. Por isso, um relacionamento é uma decisão baseada em uma possibilidade. Quando esta não acontece, faz-se necessária a correção das expectativas e, por conseguinte, das decisões baseadas nestas.

Em outras palavras, essa correção do modo como são abordadas as expectativas nada mais é que a inclusão, nestas, do acaso. Com isso, impedem-se o choque e a ira que vêm do não cumprimento delas. Assim, a relação não será mais a mesma, mas de forma nenhuma isso implica má qualidade desta. Um recomeço, com premissas mais embasadas em comportamento real e menos em expectativas, tornará a relação mais plausível e menos assustadora.

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