Os quatro preceitos do método de Descartes

Descartes diz que para a busca da verdade é necessário um método que está fundamentado em quatro preceitos.  Aqui estão eles, nas palavras do próprio Descartes:

O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.

O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las.

O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.

E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir.

O primeiro preceito visa, então, evitar duas más condutas na busca pela verdade: a precipitação e a prevenção. A primeira consiste em julgar sem ter chegado à evidência e a segunda, em insistir nos prejuízos da infância. O primeiro preceito mostra, também, a solução para evitar tais mazelas: a dúvida. Ou seja, uma vez que esta existe e motiva aquele que busca pela verdade a verificar o conceito que se quer mostrar verdadeiro de todas as formas racionalmente possíveis, se este passar nos testes e não mais for alvo de nenhuma dúvida, ele se mostrará efetivamente verdadeiro, porque foi comprovado por meio de análise feita pelo intelecto, e não por meio de conceitos não testados – precipitação – ou simplesmente absorvidos sem reflexão – prevenção.

O segundo preceito diz que é necessário dividir um conceito no maior número de partes possível para então começar a analisá-lo. Em termos contemporâneos pode-se concretizar esse conceito por meio do exemplo químico das superfícies de contato.  Superfície de contato é toda a área de um sólido em que ele pode ser tocado.  A velocidade de uma reação química depende da superfície de contato. Quanto maior esta maior aquela. Nos sólidos, as reações químicas começam na superfície externa para depois alcançarem seu interior. A superfície externa é a que propicia o contato direto entre os reagentes.  Ao partir-se um sólido ao meio soma-se à superfície externa a região antes interna que agora foi exposta. É por isso que um produto em pó se dissolve muito mais rápido do que aquele em barra. Como o pó nada mais é do que uma barra em milhares de pedaços, a superfície de contato está milhares de vezes aumentada e portanto a velocidade da reação também está. Trazendo o exemplo para o mundo de Descartes, a barra é um conceito. Será muito mais fácil entendê-lo se este for dividido em várias partes assim como o pó é mais facilmente absorvido.

O terceiro diz que é necessário conduzir os pensamentos em ordem crescente de grau de dificuldade, ou seja, os conceitos mais difíceis dependem dos mais fáceis. Pode-se fazer um paralelo com a leitura e a escrita. Para se aprender a ler é primeiro necessário saber as letras do alfabeto. Depois a maneira como as sílabas são compostas, as regras de acentuação e pontuação, figuras de linguagem e assim sucessivamente, mas todas ferramentas da língua dependem do conhecimento do básico alfabeto. Pode-se usar ainda o exemplo da matemática. Para resolver problemas complexos de geometria ou álgebra, é necessário o conhecimento das quatro operações básicas.

Para explicar o quarto preceito segue-se explicação do próprio Descartes:

Para o acabamento da ciência, é preciso passar em revista, uma por uma, todas as coisas que se relacionam com a nossa meta por um movimento de pensamento contínuo e sem nenhuma interrupção, e é preciso abarcá-las numa enumeração suficiente e metódica.

A observação do que é proposto aqui é necessária para admitir como certas essas verdades que, como o dissemos mais acima, são deduzidas dos princípios primeiros e conhecidos por si sós, mas não imediatamente. Com efeito, isso algumas vezes é feito por um encadeamento de conseqüências tão longo que, depois de ter atingido essas verdades, não é fácil nos lembrar de todo o caminho que a elas nos conduziu; é por isso que dizemos que se deve remediar a fraqueza da memória com uma espécie de movimento contínuo do pensamento.

De acordo com esse principio o conhecimento deve ser visto e revisado várias vezes de forma minuciosa e metódica garantindo assim que nenhum dado foi omitido e depois deve ser exposto de maneira elementar e em ordem para que seja guardado na mente de forma permanente e clara. Temos, então, com esses quatro preceitos, a base do método de Descartes.

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