Hábito das oposições

Hábito das oposições. – A observação inexata comum vê na natureza, por toda parte, oposições (por exemplo “quente e frio”) onde não há oposições, mas apenas diferenças de grau. Esse mau hábito nos induz também a querer entender e decompor a natureza interior, o mundo ético e espiritual, segundo tais oposições. É indizível o quanto de dor, pretensão, dureza, estranhamento, frieza, penetrou assim no sentimento humano, por se pensar ver oposições em lugar das transições. (Nietzsche, Humano, demasiado humano II, “O andarilho e sua sombra”, §67, trad. Rubens Rodrigues Torres Filho, col. Os Pensadores, 1ª Ed. 1974.)

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Nesse aforismo, Nietzsche critica mais uma vez diversos segmentos do pensamento filosófico que permearam a sociedade dos gregos até a sua época. A forma de ver a natureza que ele classifica como “observação inexata” é precisamente a forma pela qual grande parte dos filósofos viam o mundo. Por trás das relações entre quente-frio, seco-úmido, áspero-liso, claro-escuro, grande-pequeno, doce-amargo, duro-mole, etc pode-se ver a relação de oposição que percorre boa parte da Filosofia: a ligação entre causa e efeito ou causalidade. Na causalidade está a ideia de que toda a multiplicidade e complexidade do mundo pode ser reduzida à relações simples de causalidade e, então, explicadas.

Ao tachar essa explicação decompositora da realidade em relações de oposição de “obervação inexata” Nietzsche está dizendo que tal explicação é simplista. Que a vida com todas as suas vicissitudes não cabe em meras oposições. Isso fica mais claro quando ele diz, mais à frente, que onde a observação inexata vê oposições há, na verdade, gradações. Ou seja, o autor mostra que entre o branco e o preto há um espectro infinito de cores; que em uma escala de 0 a 100, não existem apenas os dois extremos, mas sim outros infinitos números no meio, que a vida é mais do que uma combinação de fenômenos que caem em dois extremos classificatórios.

Depois Nietzsche diz que essa atitude a qual classifica como mau hábito, não só fica na esfera do entendimento da natureza como induz muitas vezes o homem a transferi-la para avaliação do ser humano – representado no aforismo como “mundo ético-espiritual” – e então causa diversos problemas que ele explicita logo em seguida.

Nietzsche afirma que é indizível o tamanho do dano causado por essas oposições. Ao trazer as oposições para o campo do comportamento humano, as pessoas se vêem muitas vezes decompondo sentimentos complexos, instintos, situações densas em meros bem-mal, honesto-desonesto, bom-ruim, aceitável-inaceitável. Neste pequeno aforismo está presente em fase embrionário a crítica que Nietzsche desenvolveria e catalisaria em Para Além de Bem e Mal e Para a Genealogia da Moral que consiste, grosso modo, em mostrar que as atitudes, a vida, a realidade estão além do bem e do mal, do certo e do errado e que o homem é muito mais mais do que um manual de ética pode prever (ou, principalmente, aprovar).

Em Para a Genealogia da Moral, por exemplo, Nietzsche diz que este mundo nunca perdeu um certo odor de sangue e tortura[i], ou seja, há no mundo um caráter selvagem, violento, o que de forma nenhuma o encerra sob o rótulo de “ruim”, já que Nietzsche usa a metáfora do “odor”, indicando algo que está presente, que está atrelado, mas que não é a coisa a que se atrelou. O mundo tem cheiro de sangue, de tortura, mas não se resume a isso. Há nele selvageria, vicissitude, mas ele não é definido por isso e no mundo coexistem outras diversas características dentro do suposto espectro entre “bem” e “mal” ou qualquer outra oposição do manual de ética.

E essa mesma complexidade presente no mundo com características de diversos graus, é imanente ao ser humano. No mesmo livro, Nietzsche diz ainda que ao homem faz bem ver o sofrimento de outrem e mais bem ainda causar este sofrimento[ii], ou seja, toda a dor, pretensão, dureza, estranhamento, frieza que Nietzsche diz que penetrar no espírito humano vem justamente da perspectiva moralizante que pensar em oposições traz consigo. Quem pensa em oposições vê violência, fúria, desmesura, paixões que beiram o incontrolável e afins como partes do lado negativo da moeda da vida, como impurezas que acometem o espírito humano e na tentativa fútil de se livrar delas nasce a dor e os outros elementos citados no último período do aforismo. É quando o homem deixa de ver a vida como oposição e passa a ver que há gradações, que as oposições que ele vê por aí não se opõe, mas se interpenetram e se misturam e que essa mistura é a vida, que ela de ideal, previsível, reduzíveis a princípios metafísicos não tem nada que ele se livra de muitas amarras que o depreciam, que o limitam, que o agoniam e pode viver sem culpa todos os elementos que fazem parte da realidade e de seu ser.


[i] “E não poderíamos acrescentar que no fundo esse mundo jamais perdeu um certo odor de sangue e tortura?” (Nietzsche, Genealogia da Moral, ‘culpa’, ‘má consciência’ e coisas afins”, §6, trad. Paulo César de Souza, Companhia de Bolso, 2009)

[ii] “Ver-sofrer faz bem; fazer-sofrer mais bem ainda – eis uma frase dura, mas um velho e sólido axioma humano, demasiado humano(…)” (Nietzsche, Genealogia da Moral, “‘culpa’, ‘má consciência’ e coisas afins”, §6, trad. Paulo César de Souza, Companhia de Bolso, 2009)

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One thought on “Hábito das oposições

  1. Caro Israel. depois que li “Cosi parlo Zaratustra”, desisti de gostar de Nietzsche. Não é um autor com idéias acordadas com as minhas, ainda que escreva de maneira divina. Mas você, com sua escrita conseguiu fazer-me curiosa o suficiente para pensar se volto a namorar Nietzsche, ou se é apenas VOCÊ que escreve tão bem, que me faz gostar até de quem, naturalmente, não consigo gostar.
    Grata pela leitura e nada para criticar, o quê, sei, é horrível. E a culpa é sua, porque não escreveu de modo passível de crítica.
    Tenho certeza que você tem talento para ensinar as pessoas a gostarem, a isto no popular damos o nome de “pessoa amorosa”, que são aquelas que têm muito para dar ao mundo.
    Grata

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